A armadilha do custo por terabyte na aquisição de storage corporativo

      Ricardo Vilela 8 min de leitura
      A armadilha do custo por terabyte na aquisição de storage corporativo

      Descubra por que o preço por TB é uma métrica enganosa em storage corporativo. Análise de TCO, capacidade útil real e estratégias para evitar o lock-in de fornecedores.

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      Você acabou de sair de uma reunião com a diretoria financeira. O CFO está sorrindo porque você apresentou uma proposta de renovação de storage com um custo por terabyte (TB) incrivelmente baixo. O vendedor do fabricante garantiu que, com a "nova tecnologia de compressão mágica", você vai armazenar o dobro de dados pela metade do preço. Se você se sente vitorioso agora, prepare-se. É bem provável que você tenha acabado de assinar uma sentença de morte orçamentária para os próximos três anos.

      No mundo da infraestrutura de TI, especialmente em ambientes Enterprise, o preço de etiqueta do hardware é apenas a ponta do iceberg. Vendedores são treinados para desviar sua atenção do Custo Total de Propriedade (TCO) e focar na métrica de vaidade mais comum do mercado: o preço por gigabyte ou terabyte bruto.

      Como gestor sênior, sua obrigação não é apenas "comprar disco". É garantir a disponibilidade, a performance e, acima de tudo, a previsibilidade financeira do contrato. Vamos desmontar essa falácia e entender onde o dinheiro realmente desaparece.

      Resumo em 30 segundos

      • Capacidade Bruta é Ficção: Entre conversão binária, overhead de RAID e formatação, você perde de 20% a 40% do que comprou antes de gravar o primeiro arquivo.
      • A Mentira da Deduplicação: Promessas de taxas de redução de dados (ex: 5:1) raramente se sustentam em cargas de trabalho reais criptografadas ou multimídia.
      • O Abismo do OpEx: Licenciamento de software atrelado à capacidade e renovações de suporte abusivas no 4º ano custam mais que o hardware inicial.

      A matemática cruel da capacidade útil

      O primeiro erro de um comprador júnior é confundir a capacidade listada na caixa com a capacidade que o sistema operacional do servidor vai enxergar. Quando um fabricante lhe vende um array com 100TB brutos, você nunca terá 100TB disponíveis.

      Primeiro, existe a diferença matemática entre o Terabyte comercial (base 10) e o Tebibyte (TiB, base 2) que os sistemas operacionais utilizam. Só aqui, cerca de 9% da capacidade evapora. Em seguida, entra a proteção de dados. Em ambientes corporativos sérios, ninguém roda RAID 0. Você estará utilizando RAID 6, RAID-DP ou tecnologias proprietárias de erasure coding. Dependendo da configuração e do tamanho dos discos (especialmente com HDDs de 20TB+ onde a reconstrução é lenta e perigosa), a penalidade de paridade consome uma fatia generosa.

      Adicione a isso o espaço reservado para spares (discos de reserva), o sistema operacional do próprio storage e o buffer de performance que o array exige para não travar quando estiver cheio (geralmente recomendam não passar de 80% de ocupação).

      💡 Dica Pro: Em sua RFP (Request for Proposal), proíba cotações baseadas em capacidade bruta. Exija que o fornecedor garanta, em contrato, a Capacidade Útil Efetiva utilizável para a aplicação, já descontando RAID, overhead e formatação.

      O mito da redução de dados (Deduplicação e Compressão)

      Aqui é onde os vendedores de storage All-Flash (AFA) e NVMe costumam ser mais criativos. Eles vendem arrays com pouca capacidade física, prometendo que as tecnologias de redução de dados (DRR - Data Reduction Ratio) transformarão 10TB físicos em 50TB lógicos.

      A tecnologia é real, mas a aplicação varia drasticamente. Se o seu ambiente é composto majoritariamente por bancos de dados criptografados, imagens médicas (DICOM), vídeos de segurança ou arquivos já comprimidos (ZIP, JPEG), a taxa de deduplicação será próxima de 1:1. Ou seja, nenhuma economia.

      Se você dimensionar seu projeto contando com uma taxa de 5:1 e a realidade for 2:1, você terá que comprar o dobro de gavetas de expansão no meio do ciclo orçamentário. O vendedor vai adorar; seu diretor financeiro, não.

      Comparativo visual entre a promessa de marketing da deduplicação versus a realidade física necessária para armazenar dados criptografados. Figura: Comparativo visual entre a promessa de marketing da deduplicação versus a realidade física necessária para armazenar dados criptografados.

      O verdadeiro vilão: Licenciamento e Suporte

      O hardware de armazenamento tornou-se uma commodity. Onde os fabricantes recuperam a margem? No software e no suporte.

      Muitos players de mercado adotam o modelo de licenciamento baseado em capacidade. Isso significa que, se você adicionar uma gaveta de discos genéricos ou SSDs extras daqui a dois anos, não pagará apenas pelo hardware. Você receberá uma fatura de "ajuste de licenciamento" para que o software do controlador gerencie esses terabytes adicionais. É um imposto sobre o seu crescimento.

      Além disso, existe a armadilha da renovação do suporte. Os contratos iniciais geralmente cobrem 3 anos (o padrão de garantia). No dia 1 do quarto ano, o preço da renovação do suporte (Manutenção e SLA) costuma triplicar. Essa é uma tática deliberada para forçar um "Tech Refresh" (comprar uma máquina nova) em vez de manter a antiga rodando.

      ⚠️ Perigo: Nunca feche um contrato de storage sem fixar o preço da renovação de suporte para o 4º e 5º ano no momento da compra inicial. Se deixar para negociar daqui a 3 anos, você será refém.

      TCO: Flash vs. Híbrido vs. HDD

      Ainda existe a mentalidade de que "disco mecânico é mais barato para arquivamento". Se olharmos apenas o custo por TB na nota fiscal, sim. Mas o gestor de infraestrutura moderno precisa calcular o custo do slot no Datacenter.

      Discos mecânicos (HDD) exigem mais energia, geram mais calor (exigindo mais ar condicionado) e ocupam muito mais espaço físico (Unidades de Rack) para entregar a mesma performance (IOPS) que um drive NVMe.

      Com a densidade dos SSDs atuais (chegando a 30TB ou 60TB por drive em formatos como EDSFF E1.S ou U.2), você pode consolidar racks inteiros de storage legado em 2 ou 4 Unidades de Rack. A economia na conta de energia elétrica e no aluguel do espaço no colocation muitas vezes paga a diferença do hardware All-Flash em menos de 24 meses.

      Tabela Comparativa: A Ilusão do Preço vs. Realidade do TCO

      Variável Abordagem "Preço Baixo" (HDD/Híbrido) Abordagem "TCO Otimizado" (All-Flash/NVMe)
      Custo de Aquisição ($/TB) Baixo. Parece uma pechincha inicial. Médio/Alto. O susto inicial.
      Consumo de Energia Alto. Motores girando e cabeças de leitura consomem watts constantes. Baixo/Médio. Eficiência energética superior por IOPS.
      Espaço em Rack Alto. Necessita de muitas gavetas para atingir performance. Mínimo. Alta densidade de dados por U.
      Licenciamento de Software Frequentemente cobra por TB bruto (que é alto). Modelos modernos (alguns) cobram por controlador.
      Latência (SLA) Variável. Riscos de gargalo em picos de acesso. Determinística. Garante SLAs agressivos para o negócio.
      Vida Útil Real 3-4 anos (risco mecânico aumenta exponencialmente). 5-7 anos (com wear leveling moderno).

      Blindagem contratual contra o Lock-in

      O Vendor Lock-in (aprisionamento tecnológico) é o pesadelo de qualquer negociador. No mundo do storage, isso se manifesta através de firmwares proprietários em discos.

      O fabricante pega um SSD da Samsung ou Micron, aplica um firmware customizado que altera o tamanho do setor de 512 bytes para 520 bytes, coloca um adesivo com a marca dele e vende por 10x o preço de mercado. Se você tentar inserir um disco original da Samsung no array, o controlador rejeita a peça.

      Isso impede que você recorra ao mercado paralelo ou a empresas de TPM (Third-Party Maintenance) para manter seu equipamento legado funcionando após o fim da garantia oficial. Você fica obrigado a comprar peças de reposição exclusivamente do fabricante, pelo preço que ele ditar.

      O veredito do negociador

      Não se deixe seduzir por gráficos coloridos de dashboards de gerenciamento ou pelo menor preço na linha final da proposta comercial inicial. O storage mais barato do mercado é aquele que não obriga sua empresa a refazer toda a arquitetura a cada três anos e que não penaliza o crescimento dos seus dados com taxas de licenciamento ocultas.

      Ao redigir sua próxima RFP, mude o jogo. Peça o custo por TB efetivo e garantido para o seu tipo de dado específico. Exija travas de preço para expansão de capacidade e renovação de suporte por 5 anos. Se o vendedor hesitar ou disser que "precisa ver com a matriz", você sabe que encontrou a armadilha. O papel do procurement técnico não é ser amigo do fornecedor, é ser o guardião da continuidade e da saúde financeira da infraestrutura.


      Perguntas Frequentes (FAQ)

      Qual a diferença entre capacidade bruta e capacidade útil em storage? Capacidade bruta é a soma total aritmética dos discos físicos instalados. Capacidade útil é o espaço real que sobra para você gravar dados após descontar a conversão binária, a sobrecarga de proteção RAID (paridade), a formatação do sistema de arquivos e o sistema operacional do storage. Essa perda geralmente varia entre 20% e 40% da capacidade bruta.
      O que é a taxa de deduplicação e como ela afeta o custo? É uma tecnologia que elimina blocos de dados repetidos para economizar espaço. Vendedores prometem taxas altas (ex: 5:1) para justificar preços, mas em dados criptografados, comprimidos ou de vídeo, a taxa real pode ser próxima de 1:1. Se a taxa prometida não se concretizar, o custo por TB efetivo do projeto dispara, pois você precisará comprar mais discos.
      Como o vendor lock-in afeta o TCO de storage? O lock-in, muitas vezes via firmware proprietário em discos, impede o uso de componentes de mercado ou a contratação de suporte de terceiros (TPM). Isso dá ao fabricante o monopólio sobre a manutenção e expansão, permitindo a cobrança de preços abusivos na renovação do suporte ou na compra de capacidade adicional, aumentando drasticamente o Custo Total de Propriedade.
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      Ricardo Vilela
      Assinatura Técnica

      Ricardo Vilela

      Especialista em Compras/Procurement

      "Especialista em dissecar contratos e destruir argumentos de vendas. Meu foco é TCO, SLAs blindados e evitar armadilhas de lock-in. Se não está no papel, não existe."