A crise dos HDDs e a ascensão do QLC: o novo paradigma do armazenamento em 2026

      Arthur Siqueira 9 min de leitura
      A crise dos HDDs e a ascensão do QLC: o novo paradigma do armazenamento em 2026

      Análise de mercado: Com lead times de HDDs superando 52 semanas, data centers migram massivamente para SSDs QLC de 122TB. Entenda o impacto no TCO e na infraestrutura de IA.

      Compartilhar:

      O ano de 2025 ficará marcado nos relatórios trimestrais como o ponto de inflexão definitivo para a indústria de armazenamento mecânico. O que observamos hoje, no início de 2026, não é apenas uma evolução tecnológica natural, mas o resultado de uma tempestade perfeita: a estagnação da inovação em densidade magnética de médio porte colidindo frontalmente com a eficiência energética brutal do NAND Flash de alta densidade.

      Para CIOs e arquitetos de infraestrutura, a mensagem do mercado é clara: a era do disco rígido (HDD) como padrão de facto para cargas de trabalho gerais acabou. O movimento de capitais e a reestruturação das linhas de produção das grandes fabricantes (Western Digital, Seagate e Toshiba) indicam que o HDD está sendo relegado a um nicho específico de arquivamento frio, enquanto o QLC (Quad-Level Cell) assume o protagonismo no data center moderno.

      Resumo em 30 segundos

      • Colapso da oferta: A priorização de drives de 30TB+ para hyperscalers em 2025 criou uma escassez artificial e aumento de preços nos HDDs de capacidade média (16TB-22TB).
      • TCO Invertido: O custo de aquisição (CapEx) do Flash ainda é maior, mas o custo operacional (OpEx) por watt tornou o HDD financeiramente inviável para data lakes ativos.
      • QLC é o novo padrão: Com unidades de 122TB em produção, o Flash QLC domina cargas de leitura intensiva, essenciais para alimentação de modelos de IA.

      O colapso da cadeia de suprimentos de discos mecânicos em 2025

      A crise que observamos no ano passado não foi um acidente, mas uma correção de mercado calculada. Durante 2024 e 2025, os fabricantes de HDDs enfrentaram uma escolha difícil: manter linhas de produção diversificadas para atender o mercado corporativo tradicional ou pivotar agressivamente para atender a demanda insaciável dos hyperscalers (Google, AWS, Microsoft) por unidades de densidade extrema (acima de 30TB com tecnologias HAMR/MAMR).

      A escolha pelo segundo grupo desestabilizou a cadeia para o restante do mercado. Ao converterem linhas de montagem de drives de 16TB e 18TB para as novas tecnologias de gravação assistida por energia, a oferta de discos de "entrada" para servidores corporativos e NAS de alta performance secou.

      💡 Dica Pro: Se sua infraestrutura ainda depende de renovação de HDDs SAS de 10k ou 15k RPM, pare agora. A disponibilidade dessas unidades é residual e o prêmio de preço pago por essa tecnologia obsoleta já supera o investimento em SSDs SATA ou SAS de entrada.

      O resultado prático em 2026 é que o "custo por terabyte" do HDD, historicamente sua maior vantagem, estagnou ou subiu para o consumidor médio B2B, enquanto o preço do NAND Flash continuou sua curva descendente, impulsionado pela superprodução de camadas (layers) nas fábricas de semicondutores.

      A consolidação dos SSDs de 122TB como padrão para data lakes

      A resposta da indústria de semicondutores à crise dos HDDs foi a força bruta da densidade. A chegada e a estabilização da produção em massa de SSDs QLC de 61.44TB e, mais recentemente, de 122TB (terabytes), alteraram a física do data center.

      Estamos falando de dispositivos no formato E1.S ou U.2 que, sozinhos, substituem arrays inteiros de discos mecânicos. O QLC (Quad-Level Cell) armazena 4 bits por célula. Embora historicamente criticado por menor durabilidade e velocidade de escrita comparado ao TLC (Triple-Level Cell), a evolução dos controladores e das camadas de NAND 3D tornou essa tecnologia perfeitamente adequada para Read-Intensive Workloads (Cargas de Trabalho de Leitura Intensiva).

      Fig 1. A densidade do QLC permite consolidar racks inteiros de HDDs em poucas unidades de rack (U), alterando a equação de OpEx. Fig 1. A densidade do QLC permite consolidar racks inteiros de HDDs em poucas unidades de rack (U), alterando a equação de OpEx.

      Para data lakes, onde os dados são escritos uma vez e lidos milhares de vezes (padrão WORM - Write Once, Read Many), a densidade do QLC de 122TB permite consolidar petabytes de dados em poucas unidades de rack. Isso libera espaço físico valioso no data center, um ativo cada vez mais escasso em zonas de alta densidade computacional.

      Matemática do TCO: por que o custo por watt superou o custo por terabyte

      A métrica mais crítica em 2026 não é mais o $/TB (dólar por terabyte), mas sim o TB/W (terabyte por watt). Com a explosão do consumo energético demandado pelas GPUs de IA, os data centers atingiram seus limites de fornecimento de energia muito antes de atingirem seus limites de espaço físico.

      Neste cenário, o HDD tornou-se um vilão energético. Para manter a performance em um array de HDDs, é necessário manter os pratos girando e as cabeças atuando, consumindo energia mecânica constante e gerando calor que precisa ser dissipado (mais custo de refrigeração).

      ⚠️ Perigo: Um rack cheio de HDDs de alta densidade pode vibrar a ponto de degradar a performance (latência de cauda) e consome, em média, 4x a 6x mais energia para entregar a mesma taxa de transferência (throughput) que um sistema All-Flash QLC consolidado.

      Ao migrarmos para SSDs de 122TB, a redução no consumo de energia é drástica. Um único servidor 2U com 24 drives de 122TB oferece quase 3PB de capacidade bruta, consumindo uma fração da energia necessária para alimentar os 150+ HDDs que seriam necessários para atingir a mesma capacidade. O ROI (Retorno sobre Investimento) dessa migração, que antes levava 5 anos, agora se paga em menos de 24 meses apenas na conta de luz e refrigeração.

      Desmistificando a durabilidade do QLC em cargas de trabalho de IA

      Uma das maiores barreiras psicológicas para a adoção do QLC sempre foi a durabilidade (DWPD - Drive Writes Per Day). Analistas conservadores apontavam que o QLC "morreria" sob carga pesada. No entanto, a análise das cargas de trabalho reais de Inteligência Artificial em 2025/2026 provou o contrário.

      O ciclo de vida dos dados em IA segue um padrão específico:

      1. Ingestão (Escrita): Os dados brutos são gravados no storage.

      2. Pré-processamento (Leitura/Escrita): Limpeza e tokenização.

      3. Treinamento (Leitura Extrema): As GPUs leem o dataset repetidamente (epochs) para ajustar os pesos do modelo.

      A fase de treinamento, que é a mais longa e intensiva, é quase 100% leitura. O QLC não sofre desgaste (wear) durante a leitura, apenas na escrita. Portanto, arrays All-Flash QLC são a mídia perfeita para alimentar clusters de GPUs, oferecendo a latência baixa necessária para não deixar os processadores ociosos (o temido GPU starvation), sem o custo proibitivo do Flash TLC ou Optane.

      Além disso, tecnologias modernas de Data Placement e Wear Leveling nos controladores corporativos conseguem distribuir as escritas de forma tão eficiente que a vida útil desses drives frequentemente excede a vida útil do próprio servidor (5 a 7 anos).

      O horizonte de 2027: a morte dos discos de 10k RPM e a chegada do flash de 300TB

      Olhando para o roadmap estratégico dos próximos 12 a 24 meses, prevemos o fim oficial da produção de HDDs de performance (SAS 10k/15k RPM). Não há mais justificativa econômica ou técnica para sua existência. O mercado se bifurcará completamente em duas categorias:

      1. Flash (Performance e Capacidade Ativa): Cobrindo desde o boot até o data lake massivo.

      2. HDD (Cold Archive/Deep Storage): Discos de 30TB a 40TB focados exclusivamente em custo por TB para dados que raramente são acessados, competindo diretamente com a fita magnética (LTO).

      Fig 2. Projeção de densidade: enquanto o HDD luta para atingir 40TB com tecnologias complexas, o roadmap do NAND Flash aponta para drives de 256TB e 300TB até o final de 2027, utilizando empilhamento de mais de 400 camadas.

      A chegada prevista de unidades Flash de 300TB em 2027, provavelmente utilizando tecnologias como PLC (Penta-Level Cell - 5 bits por célula) ou aprimoramentos do QLC, selará o destino do HDD em qualquer aplicação que exija acesso online.

      Recomendação Estratégica

      Para diretores de TI e infraestrutura, a recomendação é interromper imediatamente novos investimentos em arquiteturas baseadas em HDD para cargas de trabalho de produção, virtualização ou data lakes analíticos. O custo oculto da energia e a ineficiência térmica tornam esses ativos passivos tóxicos no balanço da empresa a médio prazo.

      Concentre seus orçamentos de 2026 na modernização para All-Flash QLC de alta densidade. Utilize a economia gerada no OpEx (energia e espaço) para financiar a transição. Mantenha HDDs apenas se sua estratégia de backup exigir um tier de armazenamento imutável e desconectado, ou para repositórios de conformidade legal com baixíssima probabilidade de acesso. O futuro é flash, e ele é denso.


      Perguntas Frequentes (FAQ)

      1. O QLC é seguro para bancos de dados transacionais (SQL/Oracle)? Para bancos de dados de altíssima performance e muitas escritas aleatórias, o Flash TLC (Triple-Level Cell) ou NVMe de baixa latência ainda é o mais recomendado. O QLC é ideal para Object Storage, Data Lakes, IA e arquivos gerais. No entanto, muitos arrays modernos usam cache TLC na frente do QLC para mitigar essa limitação.

      2. Ainda vale a pena comprar HDDs para backup (Veeam/Commvault)? Sim, mas com ressalvas. Para repositórios de backup primário (onde a velocidade de restore é crítica para o RTO), o Flash está se tornando mandatório. Para retenção de longo prazo (arquivamento mensal/anual), o HDD de alta capacidade (22TB+) ainda oferece o melhor custo por TB.

      3. O que é a tecnologia E1.S mencionada? É um formato (form factor) do padrão EDSFF (Enterprise & Data Center SSD Form Factor). Diferente do formato M.2 (comum em PCs) ou U.2 (parecido com disco de 2.5"), o E1.S parece uma "régua" e foi desenhado especificamente para maximizar o fluxo de ar e a densidade térmica em servidores de data center, permitindo capacidades massivas como os drives de 122TB.

      4. A crise dos HDDs vai acabar em 2026? A disponibilidade deve melhorar, mas o foco dos fabricantes mudou permanentemente. Não espere ver inovação ou queda de preços agressiva em discos de capacidade média (abaixo de 20TB). O foco total da P&D está em drives de 30TB+ para nuvens públicas.

      #Storage Enterprise #SSD QLC #HDD Nearline #Solidigm D5-P5336 #Infraestrutura de IA #TCO Storage #Data Center 2026
      Arthur Siqueira
      Assinatura Técnica

      Arthur Siqueira

      Analista de Mercado de Storage

      "Analiso o cenário macroeconômico do armazenamento corporativo. Meu foco está nos movimentos de consolidação, flutuações de market share e na saúde financeira que dita o futuro dos grandes players."