Adeus M.2? O formato E1.S e a nova era térmica do storage enterprise

      Mariana Costa 10 min de leitura
      Adeus M.2? O formato E1.S e a nova era térmica do storage enterprise

      O M.2 está sufocando. Descubra como o formato E1.S (EDSFF) resolve o pesadelo térmico do PCIe 5.0 e redefine a densidade em data centers modernos.

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      Adeus M.2? O formato E1.S e a nova era térmica do storage enterprise

      A transição para o PCIe 5.0 trouxe um problema físico inevitável para o ecossistema de data centers: o calor. Enquanto celebrávamos a duplicação da largura de banda para 32 GT/s e velocidades sequenciais roçando os 14 GB/s, os engenheiros térmicos entravam em pânico. O formato M.2, herói dos ultrabooks e PCs gamers, tornou-se o vilão da densidade em servidores. Ele simplesmente não foi feito para dissipar os 15W a 25W que os novos controladores NVMe de ponta exigem sem derreter ou entrar em thermal throttling severo.

      É aqui que entra o EDSFF (Enterprise & Data Center Standard Form Factor), especificamente a variante E1.S. Não se trata apenas de um novo conector; é uma reengenharia completa de como o armazenamento flash interage com a refrigeração do chassi, a entrega de energia e a densidade por rack. Se você ainda está projetando servidores de alta performance baseados em U.2 ou adaptadores M.2, você está lutando uma batalha perdida contra a física.

      Resumo em 30 segundos

      • M.2 é obsoleto para Enterprise: O formato carece de hot-swap nativo, gerenciamento térmico para 20W+ e usa trilhas de 3.3V ineficientes para altas cargas.
      • E1.S é o novo padrão: Parte da família EDSFF, oferece densidade superior (até 32 drives em 1U), refrigeração passiva eficiente via fluxo de ar do chassi e trilhas de 12V.
      • Fim do bloqueio de ar: Diferente do U.2 (2.5"), o design vertical do E1.S permite que o ar fresco chegue às CPUs e memórias situadas atrás do backplane de armazenamento.

      Comparação térmica visual: O gargalo de dissipação do M.2 versus a eficiência aerodinâmica do E1.S. Figura: Comparação térmica visual: O gargalo de dissipação do M.2 versus a eficiência aerodinâmica do E1.S.

      O limite físico do M.2 em servidores de alta densidade

      O formato M.2 (anteriormente NGFF) foi uma revolução para a miniaturização, mas nunca foi destinado ao enterprise pesado. Em um cenário de Home Lab ou servidor de entrada, um M.2 2280 ou 22110 funciona bem. No entanto, quando escalamos para infraestruturas que exigem 24 ou 32 drives por nó, as falhas estruturais do M.2 ficam evidentes.

      Primeiro, a questão elétrica. O conector M.2 fornece alimentação de 3.3V. Para atingir os 15W-20W de um drive PCIe 5.0 de alta performance, a amperagem sobe consideravelmente, gerando calor resistivo no próprio conector e no PCB. O E1.S utiliza trilhas de 12V (semelhante ao slot PCIe padrão), o que é muito mais eficiente para a entrega de energia em altas cargas, reduzindo o desperdício energético e o calor residual.

      Segundo, a manutenibilidade. O M.2 não possui hot-swap nativo amigável. Trocar um drive falho exige abrir o chassi, remover parafusos minúsculos e, muitas vezes, remover riser cards. Em um data center operando 24/7, isso é inaceitável. Existem "caddies" para M.2, mas eles são gambiarras que adicionam custo e complexidade, sem resolver o problema térmico.

      ⚠️ Perigo: Tentar resfriar bancos de SSDs M.2 Gen5 em servidores 1U sem dissipadores ativos (ventoinhas dedicadas) quase certamente resultará em throttling. O drive reduzirá a velocidade para níveis de SATA (ou menos) para se proteger, anulando o investimento em hardware de ponta.

      Anatomia do E1.S e a engenharia do padrão EDSFF

      O EDSFF foi desenvolvido por um consórcio de gigantes (incluindo Intel, Meta, Microsoft e Samsung) para resolver as limitações dos formatos legados. Dentro dessa família, o E1.S (apelidado de "short ruler" ou régua curta) é a estrela para servidores de performance 1U.

      O design é enganosamente simples, mas brilhante. O drive é montado verticalmente no chassi. Isso significa que a área de superfície do PCB e do dissipador fica paralela ao fluxo de ar que entra pela frente do servidor.

      Existem variações de espessura do E1.S, cada uma com um propósito térmico e de densidade:

      • 5.9mm: Para densidade extrema, sem dissipador externo (apenas heat spreader). Exige fluxo de ar brutal.

      • 9.5mm (Simétrico): O padrão mais comum para hyperscalers. Equilibra densidade e refrigeração.

      • 15mm e 25mm (Assimétrico): Possuem dissipadores de calor massivos em um dos lados. Projetados para os drives de altíssima capacidade (30TB+) e performance (PCIe 5.0 x4 saturado) que geram acima de 20W de calor.

      Anatomia explodida de um drive E1.S: Note o conector SFF-TA-1002 e o dissipador assimétrico projetado para canalizar o ar. Figura: Anatomia explodida de um drive E1.S: Note o conector SFF-TA-1002 e o dissipador assimétrico projetado para canalizar o ar.

      Gerenciamento térmico: Dissipadores assimétricos vs fluxo de ar

      A maior vantagem do E1.S sobre o formato U.2 (o clássico formato de 2.5 polegadas) é a aerodinâmica. Um servidor cheio de drives U.2 na frente cria uma "parede de tijolos" para o ar. O ar precisa se espremer pelas frestas minúsculas entre os drives para chegar ao que realmente importa: as CPUs (que hoje passam de 350W) e as memórias DDR5 quentes.

      O E1.S, por ser montado verticalmente e ser fino, atua como uma aleta de direcionamento de ar. Ele "fatia" o fluxo de entrada, resfriando a si mesmo e permitindo que um volume muito maior de ar fresco passe para a zona traseira do servidor com menos resistência (menor queda de pressão estática).

      Em testes de laboratório, a substituição de um array U.2 por E1.S resultou em uma redução de até 4-5°C na temperatura da CPU sob a mesma curva de ventoinha, ou permitiu que as ventoinhas girassem mais devagar (economizando energia) mantendo a mesma temperatura. Em escala de data center, essa economia de energia nas ventoinhas (que podem consumir 20-30% da energia total do servidor) é dinheiro direto no caixa.

      Densidade extrema: 32 drives por 1U e o fim do gargalo frontal

      Para quem busca densidade de armazenamento all-flash, o E1.S é imbatível. Em um chassi padrão de 1U, é fisicamente difícil colocar mais de 10 ou 12 drives U.2 de 2.5 polegadas na parte frontal.

      Com o E1.S (especificamente as variantes de 5.9mm ou 9.5mm), é possível alinhar até 32 drives na frente de um servidor 1U. Se considerarmos drives de 30.72TB (já disponíveis no mercado enterprise), estamos falando de quase 1 Petabyte de armazenamento flash em 1U.

      Isso muda a matemática do TCO (Custo Total de Propriedade). Você precisa de menos racks, menos switches e menos cabos para armazenar a mesma quantidade de dados.

      💡 Dica Pro: Ao planejar a compra de servidores E1.S, verifique a espessura do dissipador suportada pelo chassi. Um chassi projetado para 32 drives de 9.5mm não aceitará os modelos de 15mm ou 25mm, limitando suas opções futuras de upgrade para drives de maior potência.

      A densidade do futuro: 32 drives E1.S populando a frente de um servidor 1U, totalizando quase 1PB de capacidade bruta. Figura: A densidade do futuro: 32 drives E1.S populando a frente de um servidor 1U, totalizando quase 1PB de capacidade bruta.

      Comparativo Técnico: M.2 vs U.2 vs E1.S

      Para visualizar por que a indústria está migrando, preparamos esta tabela comparativa focada em infraestrutura:

      Característica M.2 (2280/22110) U.2 (2.5" SFF) E1.S (EDSFF)
      Interface Elétrica 3.3V (Ineficiente p/ alta potência) 12V 12V
      Hot-Swap Não (Nativo) Sim Sim
      Limite Térmico (TDP) ~8-12W (Crítico acima disso) ~25W 25W - 40W+ (Dependendo do dissipador)
      Impacto no Fluxo de Ar Baixo (interno), mas difícil de resfriar Alto (Bloqueia ar frontal) Otimizado (Permite passagem de ar)
      Densidade (1U) Limitada pelo espaço da placa-mãe 10-12 Unidades Até 32 Unidades
      Conector M.2 Key M SFF-8639 SFF-TA-1002
      Cenário Ideal Boot drive, Workstations, Edge Servidores Legados, Storage Gen4 High-Performance Storage, AI, Cloud

      O custo da transição: Chassis, Backplanes e TCO

      Nem tudo são flores. Migrar para E1.S exige uma renovação de hardware. Você não pode simplesmente plugar um E1.S em um slot U.2 ou M.2 sem adaptadores complexos (e caros). Isso significa comprar novos chassis e backplanes projetados para o conector SFF-TA-1002.

      Atualmente, o custo por gigabyte do drive E1.S ainda carrega um pequeno "imposto de novidade" em comparação aos U.2, que são fabricados em volumes massivos há uma década. No entanto, a paridade de preço está próxima.

      Para o entusiasta de Home Lab ou pequenas empresas, o E1.S ainda é proibitivo. O mercado de usados (eBay/AliExpress) ainda não está inundado com esses drives, e as placas-mãe de consumo não possuem slots EDSFF. Mas para o Enterprise, o cálculo de TCO favorece o E1.S devido à densidade e economia de energia de refrigeração a longo prazo.

      O conector SFF-TA-1002 em detalhe: Robustez mecânica e elétrica preparada para o futuro do PCIe 6.0 e além. Figura: O conector SFF-TA-1002 em detalhe: Robustez mecânica e elétrica preparada para o futuro do PCIe 6.0 e além.

      Veredito: A morte do U.2 e o futuro do storage flash

      O formato M.2 não vai desaparecer, mas voltará ao seu lugar de origem: dentro de laptops, desktops e como boot drives modestos escondidos dentro de servidores. Ele não é o formato para armazenamento de dados em massa na era do PCIe 5.0 e 6.0.

      O U.2, por sua vez, é o "morto-vivo". Ainda é amplamente vendido por inércia e compatibilidade, mas é uma barreira térmica e física para a evolução dos data centers.

      O E1.S (e seus irmãos maiores E1.L e E3) representa a maturidade do armazenamento flash. Finalmente, paramos de fingir que SSDs são HDDs (formato 2.5") ou placas de memória (M.2) e demos a eles um formato que respeita suas necessidades térmicas e elétricas. Se você está planejando uma infraestrutura para os próximos 5 anos, ignore o U.2. O futuro é vertical, denso e respira melhor com E1.S.


      Perguntas Frequentes (FAQ)

      O que é exatamente o formato E1.S? O E1.S (Enterprise & Data Center Standard Form Factor) é um padrão de SSD desenvolvido especificamente para as necessidades de data centers modernos. Diferente do M.2, ele oferece suporte nativo a hot-swap, utiliza trilhas de 12V para melhor eficiência energética e possui um design térmico superior, permitindo densidades muito maiores em servidores 1U.
      Posso instalar um SSD E1.S no meu PC Gamer ou Home Lab? Não de forma nativa. O E1.S utiliza um conector físico (SFF-TA-1002) e voltagens (12V) diferentes dos slots M.2 (3.3V) encontrados em placas-mãe de consumo. Embora existam adaptadores PCIe, eles são caros e difíceis de encontrar, tornando o uso doméstico inviável por enquanto.
      Por que o E1.S resfria melhor que o U.2? É uma questão de aerodinâmica. Os drives U.2 de 2.5 polegadas são largos e, quando empilhados na frente do servidor, formam uma parede que bloqueia o ar. O E1.S é fino e montado verticalmente, permitindo que o ar flua entre os drives com facilidade, resfriando tanto o armazenamento quanto a CPU e a memória que estão atrás.
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      Mariana Costa
      Assinatura Técnica

      Mariana Costa

      Repórter de Tecnologia (Newsroom)

      "Cubro o universo de TI corporativa com agilidade jornalística. Minha missão é traduzir o 'tech-speak' de datacenters e cloud em notícias diretas para sua tomada de decisão."