CVE-2025-37164: O colapso do HPE OneView e a fragilidade do gerenciamento centralizado

      Magnus Vance 8 min de leitura
      CVE-2025-37164: O colapso do HPE OneView e a fragilidade do gerenciamento centralizado

      Análise forense da falha crítica CVE-2025-37164 no HPE OneView. Entenda como a execução remota de código expõe arrays de storage e servidores a um wipe total.

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      A centralização é a mentira mais sedutora da infraestrutura moderna. Vendem-nos a ideia de um "painel único de vidro" (single pane of glass) como o auge da eficiência operacional. Prometem que controlar centenas de arrays de armazenamento e milhares de lâminas de computação a partir de uma única interface web é o futuro. E nós compramos essa ideia. Até o dia em que esse vidro se estilhaça e corta as artérias do seu data center.

      A vulnerabilidade CVE-2025-37164, descoberta recentemente no HPE OneView, não é apenas mais um bug de segurança para sua equipe de patch management ignorar até a próxima janela de manutenção. É um lembrete brutal da entropia. Com um score CVSS de 10.0, ela representa o cenário de pesadelo para qualquer engenheiro de confiabilidade: o cérebro da sua infraestrutura sofreu um lobotomia remota e agora está armado contra o próprio corpo que deveria comandar.

      Resumo em 30 segundos

      • Gravidade Máxima: A CVE-2025-37164 possui pontuação CVSS v3.1 de 10.0, permitindo Execução Remota de Código (RCE) sem autenticação.
      • Impacto no Storage: O ataque não afeta apenas servidores; ele compromete o zoneamento SAN e o mapeamento de volumes em arrays Alletra e Nimble, causando indisponibilidade total de dados.
      • A Ilusão da Rede Segura: A falha explora a confiança excessiva em redes de gerenciamento "isoladas", provando que o perímetro morreu.

      O vetor de ataque na API de gerenciamento unificado

      Para entender a gravidade do colapso, precisamos dissecar a anatomia do HPE OneView. Ele não é apenas uma ferramenta de monitoramento; é uma plataforma de orquestração definida por software. Ele fala diretamente com o firmware dos seus discos, define perfis de servidor e, crucialmente, gerencia a conectividade SAN (Storage Area Network).

      A falha reside em um endpoint da API REST utilizado para comunicação legado com componentes de infraestrutura convergente. Devido a uma validação de entrada inexistente na desserialização de objetos Java, um atacante pode enviar um payload malicioso para a porta 443 do appliance.

      O sistema, projetado para ser "inteligente" e automatizado, processa esse objeto sem verificar as credenciais de quem o enviou. O resultado é acesso root imediato ao sistema operacional subjacente do appliance OneView.

      Diagrama do fluxo de ataque da CVE-2025-37164: da injeção na API ao comprometimento da infraestrutura física. Figura: Diagrama do fluxo de ataque da CVE-2025-37164: da injeção na API ao comprometimento da infraestrutura física.

      ⚠️ Perigo: Não é necessário estar logado. Se o atacante consegue "pingar" a interface web do seu OneView, ele já possui as chaves do reino.

      A falácia da rede de gerenciamento isolada

      "Mas meu OneView está em uma VLAN de gerenciamento isolada, sem acesso à internet." Essa é a frase que precede a maioria dos relatórios de incidentes catastróficos.

      A engenharia do caos nos ensina que o isolamento perfeito é um mito. Em ambientes corporativos reais, a rede de gerenciamento é permeável. Um desenvolvedor com acesso VPN, um jump host comprometido ou uma estação de trabalho de administrador infectada por phishing são pontes diretas para essa rede "segura".

      No contexto de armazenamento, a gravidade escala exponencialmente. O OneView não apenas "vê" seus storages; ele os configura. Ele detém as credenciais administrativas dos seus arrays HPE Alletra, Primera, 3PAR e Nimble para orquestrar volumes.

      Ao comprometer o OneView via CVE-2025-37164, o atacante não precisa quebrar a criptografia do seu storage. Ele simplesmente usa a ferramenta legítima de gerenciamento para enviar comandos destrutivos legítimos. É a diferença entre tentar arrombar um cofre e pedir ao gerente do banco para abri-lo.

      O impacto direto no ecossistema de Storage

      Aqui é onde a teoria encontra a realidade dura dos discos parando de girar. O OneView gerencia o que chamamos de "Server Profiles". Esses perfis definem quais WWNs (World Wide Names) virtuais um servidor usa e a quais volumes SAN ele tem acesso.

      Um atacante no controle do OneView pode executar scripts para:

      1. Remoção de Zoneamento: Ordenar aos switches SAN (Brocade/Cisco) que removam as zonas que permitem a comunicação entre os servidores e o storage. O sistema operacional (VMware/Linux/Windows) perde acesso ao disco instantaneamente. Ocorre o pânico do kernel ou a tela azul da morte.

      2. Desprovisionamento de LUNs: Enviar comandos para os arrays de armazenamento para desmapear volumes. Os dados ainda estão lá, gravados nos SSDs ou HDDs, mas logicamente inacessíveis.

      3. Reescrita de Firmware: Em cenários mais sofisticados, o OneView é usado para distribuir atualizações de firmware. Um atacante poderia injetar firmware corrompido ou antigo nos controladores de disco, "brickando" o hardware fisicamente.

      Tabela Comparativa: Gestão Tradicional vs. Definida por Software (SPOF)

      Característica Gestão Tradicional (Descentralizada) Gestão Unificada (OneView/Intersight)
      Ponto de Falha Distribuído (cada array tem seu console) Único (SPOF Crítico)
      Superfície de Ataque Fragmentada, requer múltiplas credenciais Concentrada, acesso total via API única
      Impacto de RCE Limitado ao dispositivo específico Catastrófico (Compute + Network + Storage)
      Recuperação Manual, dispositivo por dispositivo Complexa, requer reconstrução do plano de controle

      Segmentação e o princípio do privilégio zero

      A resposta para a CVE-2025-37164 não é apenas aplicar o patch. É repensar a arquitetura. Se a sua estratégia de resiliência depende de um software nunca ter bugs, você já falhou.

      O conceito de "Blast Radius" (Raio de Explosão) é fundamental aqui. Por que um único appliance OneView gerencia o ambiente de Produção, Desenvolvimento e Disaster Recovery (DR) simultaneamente?

      💡 Dica Pro: Segmente seu plano de controle. Tenha instâncias separadas do OneView (ou qualquer gerenciador centralizado) para diferentes zonas de disponibilidade. Se a instância da "Zona A" for comprometida, a "Zona B" deve continuar operando de forma independente.

      Além disso, aplique o princípio do privilégio zero às contas de serviço que o OneView utiliza para falar com os storages. O OneView precisa de permissão para deletar volumes em todos os arrays? Provavelmente não. Na maioria dos casos, ele precisa apenas criar e mapear. Restrinja as permissões no nível do array de armazenamento, impedindo que a conta de serviço realize ações destrutivas massivas.

      Representação visual da segmentação de infraestrutura limitando o raio de explosão de um ataque cibernético. Figura: Representação visual da segmentação de infraestrutura limitando o raio de explosão de um ataque cibernético.

      Protocolos de contenção para infraestrutura comprometida

      Quando a CVE-2025-37164 é explorada, o tempo de reação é medido em segundos. Se você detectou tráfego anômalo saindo do seu appliance de gerenciamento, o protocolo de "puxar o cabo" deve ser imediato.

      No entanto, em um ambiente hiperconvergente ou altamente integrado, desligar o gerenciador pode ter efeitos colaterais. O OneView, por exemplo, gerencia as conexões Virtual Connect. Se o appliance cair de forma desordenada durante uma operação de reconfiguração, você pode deixar a rede em um estado inconsistente.

      A resiliência real exige que seus arrays de armazenamento e servidores sejam capazes de operar em modo "headless" (sem cabeça). Teste isso regularmente: desligue o OneView. Seus servidores continuam acessando o storage? O multipathing continua funcionando? Se a resposta for não, sua dependência do plano de controle é patológica.

      O preço da conveniência

      A CVE-2025-37164 é um sintoma, não a doença. A doença é a nossa obsessão por conveniência em detrimento da robustez. Centralizamos o comando e controle para economizar cliques, criando um alvo perfeito para adversários que desejam causar o máximo de dano com o mínimo de esforço.

      O futuro do armazenamento resiliente não está em gerenciadores maiores e mais inteligentes, mas em sistemas autônomos que desconfiam das ordens que recebem, mesmo que venham do "chefe". Até que tratemos a rede de gerenciamento como uma zona de guerra hostil, continuaremos a ver nossos dados sequestrados pelas ferramentas que compramos para protegê-los.

      Atualize seu OneView hoje. Mas amanhã, comece a planejar como sobreviver quando ele inevitavelmente trair você novamente.

      Referências & Leitura Complementar

      • HPE Security Bulletin HPESBGN04720: Detalhes oficiais da vulnerabilidade e links para download do patch.

      • NIST NVD CVE-2025-37164: Base de dados nacional de vulnerabilidades com análise de vetor e pontuação CVSS.

      • SNIA Storage Security ISO/IEC 27040: Padrões para segurança de armazenamento e sanitização de mídia.

      O que é a CVE-2025-37164 no HPE OneView? É uma vulnerabilidade crítica (CVSS 10.0) de execução remota de código (RCE) que permite a atacantes não autenticados assumirem o controle total do appliance de gerenciamento e, consequentemente, de todo o hardware conectado (Storage e Compute).
      Como a falha afeta o armazenamento de dados (Storage)? Como o OneView gerencia o zoneamento SAN e a apresentação de volumes (LUNs) em arrays como Alletra e Nimble, um atacante pode remover mapeamentos, causando perda imediata de acesso aos dados em produção.
      Qual é a correção para a falha do HPE OneView? A HPE recomenda a atualização imediata para a versão 11.0 ou a aplicação do hotfix Z7550-98077 para versões anteriores (5.20 a 10.20).
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      Magnus Vance
      Assinatura Técnica

      Magnus Vance

      Engenheiro do Caos

      "Quebro sistemas propositalmente porque a falha é inevitável. Transformo desastres simulados em vacinas para sua infraestrutura. Se não sobrevive ao meu caos, não merece estar em produção."