Fim da resistência: Western Digital abraça o HAMR e mira discos de 44TB

      Mariana Costa 8 min de leitura
      Fim da resistência: Western Digital abraça o HAMR e mira discos de 44TB

      Após anos apostando no ePMR, a Western Digital confirma a transição para HAMR. Saiba tudo sobre os novos HDDs de 44TB UltraSMR e a guerra contra a Seagate.

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      Durante anos, a Western Digital jogou um jogo perigoso de "esperar para ver" enquanto a Seagate apostava todas as suas fichas na tecnologia HAMR (gravação magnética assistida por calor). A estratégia da WD era clara: espremer até a última gota da tecnologia ePMR convencional para manter os custos baixos e a confiabilidade alta. Mas a física tem limites duros e parece que a WD finalmente atingiu o muro.

      Em um movimento que sinaliza uma mudança tectônica nos datacenters e, eventualmente, nos nossos home labs, a gigante do armazenamento confirmou que a era da resistência acabou. Para romper a barreira dos 40TB e chegar aos prometidos 44TB, o calor é inevitável.

      Resumo em 30 segundos

      • A virada tecnológica: A Western Digital confirmou a transição para HAMR (Heat-Assisted Magnetic Recording) em seus drives de ultra-capacidade, abandonando a exclusividade do ePMR.
      • O salto de capacidade: O roadmap aponta para discos de 36TB em tecnologia convencional (CMR) e monstros de 44TB utilizando a tecnologia UltraSMR.
      • Segmentação clara: Enquanto o HAMR dominará o topo da pirâmide de capacidade, tecnologias mais antigas continuarão servindo o mercado de entrada e médio porte por questões de custo.

      A rendição ao calor: por que a WD mudou de estratégia

      A narrativa da Western Digital sempre foi sobre o "custo total de propriedade" (TCO). Enquanto a Seagate lançava sua plataforma Mozaic 3+ baseada em HAMR, a WD argumentava que adicionar lasers microscópicos às cabeças de gravação era caro e arriscado demais se o ePMR (gravação magnética perpendicular assistida por energia) ainda funcionasse.

      E funcionou, até agora. A empresa conseguiu entregar discos de 26TB e até 32TB usando variantes de ePMR e SMR. No entanto, a densidade de área necessária para colocar 40 terabytes ou mais em um formato de 3,5 polegadas exige que os bits sejam tão pequenos que se tornam magneticamente instáveis à temperatura ambiente.

      Para escrever dados nesses bits minúsculos sem que eles "vazem" para a trilha vizinha, é preciso um material de prato muito mais duro (alta coercividade). O problema é que as cabeças de gravação atuais não conseguem magnetizar esse material sozinhas. É aqui que entra o laser do HAMR: ele aquece o ponto de gravação a mais de 400°C por uma fração de nanossegundo, tornando o material "gravável", e esfria instantaneamente para travar os dados. A WD não mudou de ideia por capricho; eles mudaram porque a física do ePMR não escala para 50TB.

      Fig. 1: A física da densidade. O HAMR (direita) usa calor para reduzir a coercividade do prato, permitindo trilhas de dados significativamente mais estreitas que o padrão atual. Fig. 1: A física da densidade. O HAMR (direita) usa calor para reduzir a coercividade do prato, permitindo trilhas de dados significativamente mais estreitas que o padrão atual.

      O roteiro de 2026: 36TB CMR e o monstro de 44TB UltraSMR

      O novo roadmap é agressivo. A empresa está preparando o terreno para um lançamento em fases que deve agradar tanto os conservadores quanto os caçadores de densidade.

      O destaque vai para o modelo de 44TB UltraSMR. Este não é um disco para o seu NAS doméstico comum (falaremos disso em breve). Ele é projetado para hyperscalers — pense em Google, Meta e Microsoft — que precisam maximizar cada slot de rack. Ao combinar a densidade do HAMR com a sobreposição de trilhas do SMR (Shingled Magnetic Recording), a WD consegue um ganho de capacidade de aproximadamente 20% sobre um drive convencional.

      Para o mercado mais amplo, que inclui storages corporativos tradicionais e entusiastas de TrueNAS que preferem não lidar com as complexidades do SMR, a WD promete um disco de 36TB CMR. Este drive deve se tornar o novo "padrão ouro" para densidade sem as penalidades de reescrita do SMR.

      Guerra de densidade: ePMR atinge o teto físico vs a promessa do laser

      Para entender por que essa mudança é crítica, precisamos olhar para a densidade de área. A indústria mede isso em Gigabits por polegada quadrada (Gb/in²).

      A tecnologia atual (ePMR) está lutando para passar de 1.300 ou 1.400 Gb/in². O HAMR, teoricamente, abre as portas para 2.000, 4.000 e, eventualmente, 10.000 Gb/in². É a diferença entre reformar uma casa velha e construir um arranha-céu.

      Se você está montando um servidor ou planejando o upgrade do storage da empresa, é vital entender as diferenças fundamentais entre essas tecnologias que conviverão no mercado pelos próximos anos:

      Característica ePMR (Atual/Legado) HAMR (O Futuro)
      Mecanismo Corrente elétrica bias na cabeça de gravação. Laser nanoscópico na cabeça de gravação.
      Coercividade do Prato Média. Permite gravação magnética padrão. Altíssima. Requer calor para gravar.
      Estabilidade dos Dados Boa até ~30TB. Risco de instabilidade acima. Excelente para densidades extremas (40TB+).
      Custo por Unidade Menor (processo maduro). Maior (novos materiais e cabeças complexas).
      Público-Alvo 2026 NAS Doméstico, PMEs, Vigilância. Cloud, Datacenters, Arquivamento Frio.

      O 'asterisco' do UltraSMR: nem todo mundo poderá usar estes discos

      Aqui precisamos ter uma conversa séria sobre o UltraSMR. A Western Digital usa esse termo de marketing para uma implementação agressiva de SMR (Shingled Magnetic Recording) combinada com algoritmos de firmware avançados.

      Diferente do CMR (Conventional Magnetic Recording), onde as trilhas de dados são separadas, no SMR elas são sobrepostas como telhas em um telhado. Isso aumenta a densidade, mas cria um pesadelo na hora de reescrever dados: você não pode alterar um setor sem ter que ler, apagar e reescrever todo um bloco de trilhas adjacentes.

      ⚠️ Perigo para Home Labbers:

      Não compre discos UltraSMR ou Host-Managed SMR esperando colocá-los em um Synology ou QNAP padrão, ou misturá-los em um vdev ZFS convencional. Esses discos exigem que o sistema operacional e o sistema de arquivos saibam gerenciar as zonas de gravação sequencial. Se você colocar um desses em um array RAID tradicional, a performance de escrita cairá para quase zero e o array pode ser marcado como falho durante uma reconstrução (resilver).

      O UltraSMR de 44TB será, muito provavelmente, Host-Managed. Isso significa que o software do servidor precisa controlar onde e como os dados são gravados. É perfeito para o Dropbox ou AWS, que escrevem softwares de armazenamento customizados, mas terrível para o usuário que só quer plug-and-play.

      Western Digital vs Seagate: quem realmente lidera a corrida dos exabytes?

      A Seagate chegou ao HAMR primeiro. Seus drives Mozaic 3+ já estão em testes de qualificação com grandes parceiros há meses. Eles assumiram o risco do pioneirismo, lidando com os problemas iniciais de rendimento de produção e confiabilidade dos lasers.

      A Western Digital, ao entrar agora, tenta pegar a "segunda onda". A aposta deles é que, ao pular as primeiras gerações problemáticas do HAMR e entrar direto com um produto refinado de 40TB+, eles podem oferecer um drive mais estável e com melhor custo-benefício.

      Para o consumidor final e o gerente de TI, essa competição é excelente. O monopólio tecnológico da Seagate no segmento de ultra-densidade está prestes a acabar, o que deve pressionar os preços (dólar por TB) para baixo. No entanto, a complexidade de escolher um disco rígido aumentou. Não basta mais olhar a capacidade e a rotação (RPM); agora você precisa saber se o seu chassi suporta o calor e se o seu sistema de arquivos suporta a geometria de gravação.

      O que esperar do mercado

      A chegada da WD ao clube do HAMR valida a tecnologia como o único caminho viável para o futuro do armazenamento magnético. Se você planeja expandir seu storage em 2026, prepare-se para uma bifurcação clara no mercado. Discos abaixo de 24TB continuarão usando tecnologias "frias" e mais baratas, enquanto a elite da capacidade exigirá hardware novo e, possivelmente, refrigeração mais eficiente.

      A era dos 40TB chegou, mas ela vem quente.


      Perguntas Frequentes

      1. O HAMR diminui a vida útil do disco rígido? Não necessariamente. Embora o laser aqueça o prato repetidamente, os testes industriais indicam que a confiabilidade é comparável aos discos tradicionais. O resfriamento ocorre em nanossegundos, minimizando o estresse térmico geral no componente.

      2. Posso usar um disco UltraSMR no meu PC desktop? Provavelmente não. A maioria dos discos UltraSMR de alta capacidade usa interfaces e protocolos (como Zoned Namespaces) que o Windows ou softwares de consumo padrão não gerenciam nativamente de forma eficiente. Eles são feitos para arquiteturas de servidor específicas.

      3. O HAMR vai substituir os SSDs? Não. O HAMR é focado em "capacidade em massa" e baixo custo por TB para dados frios ou mornos. SSDs continuam imbatíveis em performance e latência. O HAMR compete com a fita magnética e HDDs antigos, não com a memória flash.

      4. Preciso de refrigeração especial para discos HAMR? Em ambientes domésticos, a refrigeração ativa (ventoinhas) padrão deve ser suficiente, mas é bom monitorar. Em datacenters com centenas de discos por rack, o gerenciamento térmico será mais crítico do que nunca, pois a densidade de energia por rack aumentará.

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      Mariana Costa
      Assinatura Técnica

      Mariana Costa

      Repórter de Tecnologia (Newsroom)

      "Cubro o universo de TI corporativa com agilidade jornalística. Minha missão é traduzir o 'tech-speak' de datacenters e cloud em notícias diretas para sua tomada de decisão."