Latência Sub-ms no Datasheet: 10 Perguntas para Desmascarar o Marketing de Rede
Promessas de latência 'sub-ms' inundam o mercado. Aprenda a separar a física da ficção com 10 perguntas técnicas essenciais para seu provedor.
Se você já leu um datasheet de fornecedor de conectividade ou equipamentos de rede nos últimos dois anos, certamente encontrou o termo mágico: "Latência Sub-ms" (abaixo de 1 milissegundo). É a nova palavra de ordem, a promessa dourada que supostamente viabilizará desde cirurgias remotas via 5G até carros autônomos que desviam de obstáculos antes mesmo de você piscar.
Mas, vamos ser honestos por um minuto. Sou pago para traduzir o "baleiês" do marketing para a língua que nós, engenheiros e arquitetos de soluções, falamos. E a tradução aqui geralmente é: "Medimos isso em um laboratório estéril, com um cabo de meio metro, sem carga na rede e arredondamos para baixo."
Neste artigo, vamos dissecar o mito da latência zero, lembrar aos departamentos de marketing que a velocidade da luz não é negociável e equipá-lo com 10 perguntas letais para fazer na próxima reunião de vendas.
A Promessa do Marketing: O Mito da "Latência Zero" e o Abuso do Termo Sub-ms
O cenário é sempre o mesmo. Um slide deck brilhante, gráficos subindo para a direita (ou descendo, no caso da latência) e um executivo de contas sorridente prometendo "Real-time absoluto". Eles vendem a ideia de que a rede deles é tão rápida que a transmissão de dados é instantânea.
O termo "Sub-ms" tornou-se o "HD Ready" da infraestrutura moderna. É vago o suficiente para não ser processável judicialmente, mas excitante o suficiente para fechar contratos. O problema é que o marketing trata a latência como um número único e estático, ignorando que ela é uma distribuição estatística sujeita a variância (Jitter) e perda de pacotes.
Quando eles dizem "latência de 1ms", eles estão falando do quê? Do tempo que o fóton leva para sair do laser? Do tempo de processamento do ASIC? Ou da experiência fim-a-fim da aplicação? Spoiler: quase sempre é a opção que faz o número parecer menor.
A Realidade Técnica: Física, Velocidade da Luz e a Diferença entre RTT e One-Way
Vamos tirar a poeira dos livros de física. A regra número um que nenhum firmware mágico pode quebrar é a velocidade da luz ($c$). No vácuo, ela viaja a aproximadamente 300.000 km/s.
No entanto, a fibra óptica não é vácuo. O índice de refração do núcleo da fibra reduz essa velocidade para cerca de 200.000 km/s (aproximadamente $2/3c$).
Isso significa que, puramente pela física, 100 km de fibra adicionam 0,5 ms de latência (One-Way). Se você precisa de uma resposta (Round Trip Time - RTT), dobre isso para 1 ms. Ou seja, se o seu datacenter está a 200 km do usuário, a latência "Sub-ms" já é fisicamente impossível apenas considerando o tempo de voo da luz, sem contar nem um único switch no caminho.
Figura: Fig. 1: A anatomia oculta da latência. O que o marketing chama de 'velocidade', a engenharia sabe que é uma soma de gargalos físicos e lógicos.
O Truque do One-Way vs. RTT
Aqui está a pegadinha clássica. Engenheiros de rede geralmente se preocupam com o RTT (ida e volta), porque é isso que afeta o handshake TCP e a responsividade da aplicação. O marketing adora citar latência One-Way (apenas ida) porque o número é metade do tamanho. Se o datasheet não especifica, assuma que estão trapaceando.
O Que Não Disseram: Serialização, Buffering e o Gargalo da Última Milha
A luz na fibra é apenas uma parte da história. A anatomia oculta da latência que a imagem acima ilustra inclui fatores que raramente aparecem na brochura:
Atraso de Serialização: Colocar bits no fio leva tempo. Um pacote de 1500 bytes (MTU padrão) leva muito mais tempo para ser "escrito" na interface do que um pacote de 64 bytes. Em links de 1Gbps, isso é negligenciável (~12 microssegundos), mas em links congestionados ou de menor velocidade, isso acumula.
Buffering e Queuing: O inimigo silencioso. Se o switch do provedor estiver congestionado, seu pacote "Sub-ms" vai sentar na fila de espera. É aqui que a latência média é inútil. Você não quer saber a média; você quer saber o p99 (o pior caso para 99% dos pacotes).
Forward Error Correction (FEC): Em tecnologias modernas como 5G e links ópticos de alta velocidade (400G/800G), o algoritmo de correção de erros adiciona latência de processamento. O sinal é limpo, mas chega atrasado.
As 10 Perguntas Fatais: Do Tamanho do Pacote (MTU) ao Percentil
Não aceite o PDF. Na próxima reunião com o fornecedor, puxe esta lista. Observe o suor frio quando você perguntar sobre o item 3.
O valor é RTT ou One-Way? (Se gaguejarem, é One-Way).
Qual foi o tamanho do pacote usado no teste? (64 bytes é fácil; quero ver com 1500 bytes ou Jumbo Frames).
Qual é a latência no percentil 99 (p99) e p99.9? (A média esconde os picos de lag que matam aplicações VoIP e HFT).
Esse valor inclui a "Last Mile" ou é apenas no Backbone? (Latência porta-a-porta no Core é irrelevante se o acesso é via rádio congestionado).
Qual é o Jitter máximo garantido em SLA? (Latência baixa com jitter alto é pior que latência média estável).
O teste foi feito com a rede em Idle ou sob carga (ex: 80% de utilização)?
Há penalidade financeira no contrato se a latência exceder o prometido? (Se não há multa, não há garantia, apenas "best effort" com um laço de fita).
Qual é o atraso de processamento (switching delay) por salto? (Switches Cut-through são mais rápidos que Store-and-forward).
Como o FEC (Forward Error Correction) impacta esse número? (Especialmente crítico para 5G e links de rádio).
Posso rodar meu próprio teste RFC 2544 antes de assinar? (A prova final).
Comparação com Concorrentes: Fibra Dedicada vs. 5G vs. MPLS Compartilhado
Nem todo "Sub-ms" é criado igual. Vamos comparar as tecnologias comuns onde esse termo é jogado ao vento.
| Tecnologia | A Promessa | A Realidade Técnica | O Veredito Cético |
|---|---|---|---|
| Fibra Escura (Dark Fiber) | "Velocidade da Luz Pura" | Limitada apenas pela física e equipamentos nas pontas. Sem filas de terceiros. | O único Sub-ms real para distâncias curtas (<100km). Mas custa um rim. |
| 5G (URLLC) | "Latência de 1ms sem fios" | O 1ms é apenas na interface aérea (celular até a torre). O backhaul até o servidor adiciona de 10 a 50ms. | Marketing puro, a menos que você use Edge Computing na própria torre. |
| MPLS / SD-WAN | "Baixa Latência Garantida" | Compartilha infraestrutura. QoS ajuda, mas congestionamento físico é inevitável. | Bom para estabilidade, mas raramente é verdadeiramente "Sub-ms" ponta-a-ponta. |
| Internet Dedicada | "Rápido" | Roteamento BGP dinâmico. Seus pacotes podem dar a volta ao mundo se um link cair. | Imprevisível. Nunca confie para aplicações críticas de tempo real. |
Veredito: Quando o Sub-ms é Real e Quando é Apenas Tinta no Papel
O termo "Latência Sub-ms" não é inerentemente uma mentira, mas é uma verdade de laboratório que raramente sobrevive ao contato com o mundo real.
Para engenheiros de High-Frequency Trading (HFT) ou clusters de computação de alta performance (HPC) dentro de um mesmo Data Center, o Sub-ms é uma exigência básica e alcançável (frequentemente na casa dos microssegundos).
Para qualquer coisa que envolva cruzar uma cidade, passar por uma operadora de telecomunicações ou, Deus o livre, usar uma rede móvel, "Sub-ms" é papo de vendedor. A física da luz e a complexidade dos roteadores modernos simplesmente não permitem isso de forma consistente.
Conselho final: Ignore o título do slide. Vá direto para as letras miúdas do SLA. Se o contrato não garante o p99 da latência sob pena de multa, aquele "1ms" vale tanto quanto uma nota de 3 reais.
Referências Técnicas e Leitura Recomendada
RFC 1242 - Benchmarking Terminology for Network Interconnection Devices: A bíblia para entender o que realmente significa "throughput" e "latência".
RFC 2544 - Benchmarking Methodology for Network Interconnect Devices: O padrão ouro de como testes devem ser rodados (e como detectar se foram manipulados).
Bufferbloat Project: Documentação extensa sobre como o excesso de buffering destrói a latência, independentemente da largura de banda.
Metodologia Y.1564 (ITU-T): O padrão moderno que substitui o RFC 2544 para ativação de serviços Ethernet, focando mais em Jitter e Latência sob carga.
Roberto Uchoa
Sysadmin Veterano (Anti-Hype)
"Sobrevivente da bolha pontocom e do hype do Kubernetes. Troco qualquer arquitetura de microsserviços 'inovadora' por um script bash que funciona sem falhas há 15 anos. Uptime não é opcional."