NVMe-oF TCP vs RoCE: qual protocolo domina o data center moderno?
Comparativo técnico definitivo entre NVMe/TCP e RoCEv2. Descubra qual protocolo de storage oferece o melhor equilíbrio entre latência, custo e complexidade para sua infraestrutura.
Você gastou uma fortuna em arrays All-Flash com SSDs NVMe de última geração, mas suas aplicações ainda parecem engasgar. O culpado provavelmente não é o disco, mas o "cano" que conecta seus servidores ao storage. Durante décadas, o iSCSI e o Fibre Channel foram os reis do pedaço, mas eles foram desenhados para a era dos discos mecânicos (HDD). Tentar passar tráfego NVMe por protocolos SCSI antigos é como tentar encher uma piscina olímpica usando um canudo.
É aqui que entra o NVMe over Fabrics (NVMe-oF). Ele estende a performance do barramento PCIe do servidor diretamente para o storage através da rede. Mas a indústria se dividiu em duas trincheiras principais para transportar esses dados via Ethernet: RoCEv2 (RDMA over Converged Ethernet) e NVMe/TCP.
Um promete velocidade pura e latência quase zero. O outro promete simplicidade e compatibilidade total. Qual deles você deve implementar na sua infraestrutura? Vamos dissecar essa batalha.
Resumo em 30 segundos
- RoCEv2 (RDMA): É a Ferrari. Oferece a menor latência possível e baixo uso de CPU, mas exige switches caros, configuração de rede "sem perdas" (lossless) complexa e placas de rede específicas.
- NVMe/TCP: É o SUV confiável. Roda em qualquer switch Ethernet padrão e qualquer placa de rede. Tem latência um pouco maior que o RoCE, mas ainda é drasticamente mais rápido que o iSCSI.
- O Veredito: Para 90% dos casos (VMware, bancos de dados gerais), o NVMe/TCP vence pelo custo-benefício e facilidade. O RoCE fica reservado para HPC (Computação de Alto Desempenho) e clusters de IA.
O problema do gargalo legado
Para entender por que essa briga existe, você precisa entender o que estamos tentando substituir. O protocolo iSCSI encapsula comandos SCSI em pacotes TCP/IP. O problema é que o SCSI foi criado para discos que giram e têm tempos de busca mecânica. Ele é serial, tem filas limitadas e exige muita tradução de comandos pela CPU.
O NVMe foi desenhado para memória flash: ele é massivamente paralelo, suporta 64.000 filas de comandos e fala a língua nativa do PCIe. Quando colocamos NVMe sobre uma rede (Fabric), queremos manter essas características.
Figura: Comparação visual entre o afunilamento do protocolo SCSI legado e o paralelismo massivo do NVMe.
RoCEv2: a busca pela velocidade absoluta
O RoCE (pronuncia-se "Rocky") v2 é a implementação mais popular de RDMA (Remote Direct Memory Access) sobre Ethernet.
A mágica do RDMA é o "zero-copy". Em uma transferência de rede normal, os dados são copiados da aplicação para o buffer do sistema operacional, depois para o driver, e só então para a placa de rede. O RDMA permite que a placa de rede de um servidor leia ou escreva diretamente na memória de outro servidor (ou storage), ignorando completamente a CPU e o Sistema Operacional do destino.
Os prós do RoCE
Latência Insana: Estamos falando de latências de rede na casa de 5 a 10 microssegundos.
Offload de CPU: Como a placa de rede (NIC) faz o trabalho pesado, a CPU do servidor fica livre para rodar suas aplicações.
O "imposto" oculto do RoCE
Aqui é onde o sonho vira pesadelo para muitos administradores de rede. O RDMA odeia perda de pacotes. Se um pacote se perde, o protocolo precisa retransmitir e a performance cai de um penhasco.
Para evitar isso, você precisa configurar uma Lossless Ethernet (Ethernet sem perdas). Isso exige:
Switches Específicos: Eles precisam suportar DCB (Data Center Bridging).
PFC (Priority Flow Control): Um mecanismo que "pausa" o tráfego em filas específicas para evitar buffer overflow.
ECN (Explicit Congestion Notification): Para gerenciar o congestionamento antes que ele ocorra.
⚠️ Perigo: Configurar PFC incorretamente pode causar o temido "head-of-line blocking" ou tempestades de pausa, onde um switch manda o outro parar de transmitir, travando a rede inteira do data center. É complexo e frágil.
Figura: O mecanismo de acesso direto à memória do RoCEv2 e a dependência de controle de fluxo no switch.
NVMe/TCP: a revolução da simplicidade
Enquanto os engenheiros de rede arrancavam os cabelos configurando PFC para o RoCE, a indústria (liderada por gigantes como a Dell, NetApp e a própria criadora do NVMe) padronizou o NVMe/TCP em 2018.
A ideia é brilhante: encapsular os comandos NVMe dentro de pacotes TCP padrão.
Por que o TCP mudou o jogo?
O TCP (Transmission Control Protocol) é a linguagem da internet. Ele foi desenhado para ser robusto. Se um pacote se perde, o TCP retransmite e a vida segue. Ele lida com congestionamento nativamente.
Isso significa que o NVMe/TCP:
Não exige switches especiais: Funciona no switch Top-of-Rack que você comprou há 3 anos.
Não exige Lossless Ethernet: Adeus, pesadelo do PFC.
É roteável em qualquer lugar: Pode atravessar sub-redes e até WANs (embora a latência aumente).
O custo da simplicidade
O NVMe/TCP não tem a mágica do RDMA (por padrão). O processamento do encapsulamento TCP consome ciclos da CPU do servidor (Host CPU).
💡 Dica Pro: Para mitigar o uso de CPU no NVMe/TCP, o mercado está adotando SmartNICs ou DPUs (Data Processing Units). Essas placas fazem o offload do processamento TCP, entregando uma performance muito próxima ao RoCE, mas mantendo a compatibilidade da rede padrão.
Figura: Comparativo de latência e custo entre os protocolos, destacando o equilíbrio do NVMe/TCP.
Batalha de Performance: O que dizem os números?
Em testes de laboratório controlados, o cenário geralmente é este:
| Métrica | iSCSI (Legado) | NVMe/TCP | RoCEv2 (RDMA) |
|---|---|---|---|
| Latência de Rede | 100-200 µs | 30-50 µs | 5-10 µs |
| Uso de CPU (Host) | Alto | Médio/Alto (sem DPU) | Muito Baixo |
| Complexidade de Rede | Baixa | Baixa (Plug & Play) | Altíssima (Lossless) |
| Custo de Hardware | Baixo | Baixo | Alto (Switches/NICs) |
Embora o RoCE seja tecnicamente mais rápido, a diferença entre 10µs e 40µs é irrelevante para a maioria das aplicações de negócios, como SQL Server, VDI ou servidores web. O gargalo real geralmente está na aplicação ou no próprio SSD, não nesses microssegundos de rede.
O fator ecossistema: VMware e o mercado
A virada de chave aconteceu quando a VMware anunciou suporte nativo total ao NVMe/TCP no vSphere 7.0 Update 3. Isso validou a tecnologia para o mercado corporativo.
Hoje, grandes players de storage como Pure Storage, Dell PowerStore e NetApp estão empurrando o NVMe/TCP como o padrão de fato para implementações novas. Eles sabem que o custo de suporte para ajudar clientes a depurar configurações de PFC no RoCE é alto demais. O NVMe/TCP "simplesmente funciona".
Figura: A integração nativa do NVMe/TCP em ambientes virtualizados modernos como VMware.
Qual escolher para o seu Data Center?
Escolha RoCEv2 se:
Você está construindo um cluster de HPC (High Performance Computing) ou treinamento de IA/Machine Learning.
Você tem uma equipe de engenharia de rede dedicada e capaz de manter uma fabric Lossless.
Cada microssegundo impacta diretamente sua receita (ex: High Frequency Trading).
Escolha NVMe/TCP se:
Você roda virtualização geral (VMware, Hyper-V, KVM).
Você quer aproveitar a infraestrutura de switches Ethernet existente (10GbE, 25GbE, 100GbE).
Você quer a performance do NVMe sem a complexidade de configuração do RDMA.
Você quer reduzir o TCO (Custo Total de Propriedade).
O futuro é TCP (com uma pitada de silício)
A guerra dos protocolos parece estar chegando ao fim com uma vitória pragmática. O NVMe/TCP está se tornando o padrão para armazenamento primário em data centers devido à sua flexibilidade e custo. A desvantagem do uso de CPU está sendo resolvida rapidamente com a commoditização das placas de rede com offload (mesmo NICs padrão da Intel e Broadcom já fazem muito disso hoje).
O RoCE não vai morrer, mas ficará confinado ao seu nicho de ultra-performance, onde a complexidade se justifica. Para todo o resto, o TCP provou mais uma vez que a compatibilidade universal vence a velocidade bruta. Se você vai atualizar seu storage este ano, aposte suas fichas no TCP.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O NVMe/TCP é muito mais lento que o RoCE?
Em termos brutos, sim. O RoCE adiciona cerca de 5-10 microssegundos de latência, enquanto o NVMe/TCP adiciona entre 30-80 microssegundos. Porém, para 90% das cargas de trabalho virtualizadas (como VMware vSphere), essa diferença é imperceptível, e o TCP ainda é drasticamente mais rápido que o iSCSI.Posso usar switches comuns para RoCEv2?
Tecnicamente o RoCEv2 é roteável, mas para performance estável ele exige switches com suporte a DCB (Data Center Bridging), PFC (Priority Flow Control) e ECN. Sem isso, a perda de pacotes destrói a performance do RDMA. Já o NVMe/TCP funciona em qualquer switch Ethernet padrão.Preciso de placas de rede especiais (SmartNICs) para NVMe/TCP?
Não obrigatoriamente. O NVMe/TCP roda em qualquer NIC padrão. No entanto, o uso de SmartNICs ou DPUs pode ajudar a reduzir o uso de CPU do servidor (offload), aproximando a eficiência do TCP à do RoCE.
Silvio Zimmerman
Operador de Backup & DR
"Vivo sob o lema de que backup não existe, apenas restore bem-sucedido. Minha religião é a regra 3-2-1 e meu hobby é desconfiar da integridade dos seus dados."