O fim do 'spinning rust'? Como os SSDs QLC de 61TB estão reescrevendo a economia do data center
SSDs QLC de 61TB da Solidigm e Samsung desafiam o domínio dos HDDs no armazenamento nearline. Analisamos o impacto no TCO, densidade e o futuro do storage.
O som ambiente de um data center corporativo sempre foi definido pelo zumbido agudo de milhares de discos rígidos girando a 7.200 RPM. Esse ruído, carinhosamente (ou não) apelidado de "spinning rust" (ferrugem giratória), está com os dias contados para uma grande fatia do mercado. A chegada dos SSDs de ultra-capacidade, liderados pelos modelos QLC de 61,44TB da Solidigm e as novas ofertas da Samsung, não é apenas uma evolução de hardware. É uma mudança fundamental na planilha de custos de infraestrutura.
Durante décadas, a regra foi clara: SSDs para performance, HDDs para capacidade. Essa fronteira acaba de ser apagada. Com drives flash atingindo densidades que o armazenamento magnético só sonha em alcançar na próxima década, a conversa mudou de "quanto custa comprar" para "quanto custa manter ligado".
Resumo em 30 segundos
- Densidade Extrema: Novos SSDs QLC (Quad-Level Cell) atingiram a marca de 61TB em um único drive, permitindo petabytes em apenas 1U ou 2U de rack.
- TCO vs. CapEx: Embora o disco magnético ainda seja mais barato na compra inicial, o SSD vence no Custo Total de Propriedade (energia, refrigeração e espaço físico).
- O Fim do Tier "Morno": HDDs estão sendo empurrados exclusivamente para o arquivamento frio (cold storage), perdendo espaço em cargas de trabalho de leitura intensiva como IA e CDNs.
A barreira de densidade quebrada: 61TB em formato U.2
A Solidigm (empresa formada pela venda da divisão de memória da Intel para a SK Hynix) lançou o D5-P5336, um monstro de 61,44TB. Para colocar isso em perspectiva, você precisaria de quase três dos maiores HDDs comerciais atuais (cerca de 22TB-24TB) para igualar a capacidade bruta de um único desses SSDs. E o SSD faz isso ocupando o espaço de um maço de cigarros, sem partes móveis.
A mágica por trás disso é a tecnologia QLC (Quad-Level Cell). Diferente do TLC (Triple-Level Cell) usado na maioria dos SSDs enterprise de alta performance, o QLC armazena 4 bits de dados por célula de memória.
💡 Dica Pro: Historicamente, aumentar bits por célula reduzia a durabilidade e a velocidade. No entanto, avanços nos controladores e nas camadas 3D NAND tornaram o QLC viável para cargas de trabalho "Read Intensive" (muita leitura, pouca escrita), que representam cerca de 80% do tráfego de um data center moderno.
A Samsung segue de perto com sua linha BM1743 e futuros lançamentos V-NAND, consolidando a tendência: o flash não está mais perseguindo o HDD em capacidade. Ele já ultrapassou.
Figura: Comparativo visual de densidade: Um rack inteiro de HDDs sendo substituído por uma única unidade de servidor flash de alta densidade.
Por que o custo por terabyte não é mais a única métrica
Se você olhar apenas para o preço de etiqueta na Newegg ou na distribuição corporativa, o HDD ainda ganha. O custo por terabyte (CapEx) do disco magnético é imbatível. Mas data centers não pagam apenas pelo hardware; eles pagam pelo espaço (real estate), pela energia para girar os discos e, crucialmente, pela energia para resfriar o calor gerado por esse atrito.
Aqui entra a "economia do flash". Um servidor 1U equipado com drives de 61TB pode armazenar mais de 1 Petabyte de dados. Para fazer o mesmo com HDDs, você precisaria de múltiplos racks cheios de gavetas de armazenamento (JBODs).
O impacto no PUE (Power Usage Effectiveness) é brutal. Substituir arrays de HDDs por SSDs de alta densidade pode reduzir o consumo de energia em até 80% para a mesma capacidade armazenada. Em uma era onde data centers estão lutando para conseguir energia suficiente para alimentar GPUs de Inteligência Artificial, cada watt economizado no armazenamento é um watt que pode ser desviado para a computação.
O dilema da durabilidade e o nicho da IA
Nem tudo são flores no jardim do silício. A tecnologia QLC tem limitações físicas inerentes. A durabilidade de escrita (medida em DWPD - Drive Writes Per Day) é significativamente menor que a de drives TLC ou Optane.
Isso significa que você não vai colocar um Solidigm D5-P5336 para rodar um banco de dados transacional de alta frequência (OLTP) ou como cache de escrita primário. Mas esse não é o objetivo. O alvo são os Data Lakes, Content Delivery Networks (CDNs) e Pipelines de Treinamento de IA.
Na era da IA Generativa, a velocidade de leitura é crítica. As GPUs H100 da NVIDIA precisam ser alimentadas com dados em uma velocidade que HDDs mecânicos, com suas latências de busca mecânica, simplesmente não conseguem acompanhar. O "gargalo de I/O" tornou-se o inimigo número um da performance de IA, e o SSD QLC resolve isso oferecendo latência de flash com capacidade de disco rotativo.
Tabela Comparativa: O Novo Cenário de Storage
| Característica | SSD QLC Enterprise (61TB+) | HDD Nearline (24TB+) | Veredito |
|---|---|---|---|
| Densidade Física | Extrema (1PB+ em 1U) | Baixa (Requer múltiplos U) | SSD vence por muito |
| Performance (Leitura) | 7.000+ MB/s | ~280 MB/s | SSD é ordens de magnitude superior |
| Custo Inicial (CapEx) | Alto ($$$) | Baixo ($) | HDD ainda é o rei do preço baixo |
| Consumo Energético | Baixo (Watts/TB mínimos) | Alto (Motor + Atuador) | SSD reduz a conta de luz |
| Durabilidade (Escrita) | Limitada (0.x DWPD) | Teoricamente infinita (Mecânica) | HDD aguenta mais reescrita |
| Caso de Uso Ideal | AI Data Lakes, Streaming, Object Storage | Backup, Arquivo Morto, Cold Storage | Depende da aplicação |
A resposta magnética: HAMR e o futuro do disco
Seria prematuro declarar a morte total do HDD. A Seagate e a Western Digital não estão paradas. A resposta da indústria de discos magnéticos é a tecnologia HAMR (Heat-Assisted Magnetic Recording).
A Seagate, com sua plataforma Mozaic 3+, já está enviando discos com capacidades acima de 30TB e tem roadmaps claros para 50TB e além. A tecnologia usa um laser minúsculo na cabeça de gravação para aquecer o prato momentaneamente, permitindo gravar bits menores e mais densos sem perder a estabilidade magnética.
⚠️ Perigo: A complexidade do HAMR é alta. Estamos falando de lasers e nanotecnologia operando a nanômetros de distância de um prato girando a milhares de rotações por minuto. Embora promissor para manter o custo por TB baixo, a complexidade mecânica aumenta o risco de falhas em comparação ao estado sólido.
O HDD está se tornando uma tecnologia de nicho para "Cold Storage" e "Deep Archive". Se você precisa guardar dados que raramente serão acessados (backups regulatórios, logs antigos), o HDD ainda é a escolha economicamente racional. Para todo o resto, o flash está assumindo o controle.
Previsão: O Data Center "All-Flash" está mais perto do que parece
A barreira psicológica de preço está caindo. Com a pressão por sustentabilidade (ESG) e a necessidade insaciável de velocidade para alimentar modelos de IA, a métrica de "custo por watt" e "performance por rack" está superando o simples "custo por terabyte".
Para o gestor de TI ou arquiteto de soluções, a recomendação é clara: pare de orçar armazenamento "morno" (warm data) com HDDs por padrão. Faça a conta do TCO considerando energia e espaço em rack. É muito provável que, pela primeira vez na história, o SSD gigante seja a opção mais barata a longo prazo. O "spinning rust" não vai desaparecer amanhã, mas seu território está encolhendo rapidamente para os cantos mais frios e empoeirados do data center.
O que é um SSD QLC e por que ele é importante para servidores?
QLC (Quad-Level Cell) é uma tecnologia de memória flash que armazena 4 bits de informação em cada célula, ao contrário dos 3 bits do TLC ou 2 bits do MLC. Isso permite criar SSDs com densidades massivas (como 61TB) a custos de fabricação menores. Para servidores, isso é crucial porque permite substituir racks inteiros de discos rígidos lentos por servidores compactos de alta velocidade, ideais para cargas de trabalho que exigem muita leitura, como streaming de vídeo e alimentação de dados para Inteligência Artificial.SSDs QLC vão substituir totalmente os HDDs?
Não imediatamente e nem totalmente. Embora o Custo Total de Propriedade (TCO) dos SSDs QLC seja favorável devido à economia de energia e espaço, o custo de compra inicial (CapEx) dos HDDs ainda é imbatível. Além disso, tecnologias como HAMR (gravação magnética assistida por calor) estão permitindo que os HDDs atinjam capacidades de 30TB+, mantendo-os competitivos e essenciais para "armazenamento frio" (backups e arquivos que raramente são acessados).Qual a diferença de durabilidade entre QLC e HDDs?
A durabilidade de escrita é o ponto fraco do QLC. SSDs modernos desse tipo têm um DWPD (Drive Writes Per Day) menor que os SSDs TLC tradicionais, o que significa que eles se desgastam mais rápido se você gravar e apagar dados intensamente o tempo todo. HDDs sofrem desgaste mecânico, mas não têm limite de reescrita de célula. Por isso, SSDs QLC são posicionados para leitura (Data Lakes, IA), enquanto HDDs ou SSDs de alta resistência são melhores para gravação intensa.
Mariana Costa
Repórter de Tecnologia (Newsroom)
"Cubro o universo de TI corporativa com agilidade jornalística. Minha missão é traduzir o 'tech-speak' de datacenters e cloud em notícias diretas para sua tomada de decisão."