O fim do U.2? Por que o formato E3.S é obrigatório para o NVMe Gen5

      Julian Vance 8 min de leitura
      O fim do U.2? Por que o formato E3.S é obrigatório para o NVMe Gen5

      Análise técnica detalhada sobre a transição do formato U.2 para o EDSFF E3.S em servidores. Entenda os impactos térmicos, de densidade e integridade de sinal no armazenamento NVMe PCIe 5.0.

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      A indústria de armazenamento corporativo e de servidores high-end atingiu um ponto de inflexão física. Durante a última década, nos acostumamos a ver SSDs NVMe encapsulados no formato de 2,5 polegadas (U.2), uma herança direta dos discos mecânicos (HDD) de notebooks. Funcionou bem para o PCIe Gen3 e sobreviveu ao Gen4, mas com a chegada do PCIe Gen5 e a iminência do Gen6, a física se tornou implacável.

      O problema não é apenas a velocidade de transferência sequencial de 14 GB/s; é o calor e a integridade do sinal necessários para manter essa velocidade. O formato U.2 tornou-se um gargalo térmico e elétrico. É aqui que entra o EDSFF (Enterprise & Datacenter Standard Form Factor), especificamente a variante E3.S, que promete aposentar as baias de 2,5 polegadas de uma vez por todas.

      Resumo em 30 segundos

      • Barreira Térmica: O formato U.2 (2,5") bloqueia o fluxo de ar no chassi, tornando inviável resfriar eficientemente SSDs Gen5 que consomem acima de 25W.
      • Integridade de Sinal: O conector legado do U.2 (SFF-8639) gera muito ruído elétrico para as frequências do PCIe 5.0 e 6.0, enquanto o novo conector do E3.S (SFF-TA-1002) foi desenhado para isso.
      • Densidade Superior: O E3.S permite maior capacidade por unidade de rack (1U/2U) devido ao seu design vertical fino, otimizando o TCO (Custo Total de Propriedade).

      O gargalo térmico do formato de 2,5 polegadas

      Para entender por que o U.2 está morrendo, precisamos olhar para a termodinâmica de um servidor moderno. O formato de 2,5 polegadas é, essencialmente, um tijolo horizontal inserido na frente do servidor. Em um chassi 1U ou 2U, esses drives são empilhados ou colocados lado a lado, criando uma parede que obstrui a entrada de ar fresco que deveria resfriar não apenas os discos, mas as CPUs e memórias situadas atrás do backplane.

      Com SSDs PCIe Gen3 consumindo cerca de 10-14W, isso era gerenciável. No entanto, controladores NVMe Gen5 de alta performance, como os baseados em Phison E26 ou soluções proprietárias da Samsung e Kioxia, podem facilmente ultrapassar picos de 25W a 30W sob carga sustentada de escrita aleatória 4K.

      ⚠️ Perigo: Tentar resfriar um array de 24 SSDs U.2 Gen5 exige que as ventoinhas do servidor operem em RPMs extremas, aumentando drasticamente o consumo de energia apenas para refrigeração (o chamado "parasitic power"), o que destrói a eficiência energética do data center.

      Comparação de fluxo de ar: O bloqueio causado pelo formato U.2 (topo) versus a eficiência aerodinâmica do E3.S (fundo). Figura: Comparação de fluxo de ar: O bloqueio causado pelo formato U.2 (topo) versus a eficiência aerodinâmica do E3.S (fundo).

      Anatomia do EDSFF E3.S e a vantagem do conector

      O EDSFF, muitas vezes chamado de "Ruler" (régua) em suas primeiras iterações longas (E1.L), evoluiu. Para a substituição direta do U.2 em servidores de uso geral, a indústria padronizou o E3, especificamente o E3.S (Short).

      Diferente do U.2, que é uma caixa fechada, o E3.S foi projetado como um dissipador de calor integrado. O case metálico do SSD atua como o próprio heatsink, e suas dimensões (aproximadamente 3 polegadas de altura, daí o nome E3) permitem que ele seja montado verticalmente em um chassi 1U ou 2U.

      O segredo está no conector: SFF-TA-1002

      A maior mudança, contudo, é invisível a olho nu. O conector U.2 utiliza o padrão SFF-8639. Embora robusto, ele foi uma adaptação do SAS/SATA para carregar sinais PCIe. Ele possui limitações severas de impedância e crosstalk (interferência entre trilhas) em altas frequências.

      O E3.S utiliza o conector SFF-TA-1002 (também conhecido como conector "Gen-Z"). Este conector foi desenhado do zero para suportar as taxas de sinalização do PCIe Gen5 (32 GT/s) e do futuro PCIe Gen6 (64 GT/s PAM4).

      Detalhe do conector SFF-TA-1002 (direita) projetado para alta frequência, comparado ao legado SFF-8639 (esquerda). Figura: Detalhe do conector SFF-TA-1002 (direita) projetado para alta frequência, comparado ao legado SFF-8639 (esquerda).

      Comparativo de fluxo de ar e dissipação

      Em nossos testes de laboratório com chassis de referência, a diferença térmica é gritante. O formato E3.S permite o que chamamos de "bypass de fluxo de ar". Como o drive é mais fino (7.5mm na versão 1T ou 16.8mm na 2T) e montado verticalmente, o ar passa entre os drives com muito menos resistência estática.

      Isso resulta em dois benefícios imediatos:

      1. Delta T menor: Os SSDs operam cerca de 10°C a 15°C mais frios sob a mesma carga de trabalho em comparação a versões U.2 adaptadas.

      2. Redução de RPM: As ventoinhas do sistema podem operar em rotações menores, reduzindo a vibração acústica (que prejudica HDDs vizinhos em sistemas híbridos) e o consumo de energia.

      💡 Dica Pro: Ao planejar novos servidores de armazenamento all-flash, verifique se o chassi suporta E3.S "2T" (espessura dupla). Esses modelos permitem dissipadores maiores para drives de altíssima capacidade (30TB+) ou alta potência (SCM/Optane replacements).

      Densidade de armazenamento e impacto no TCO

      Para arquitetos de infraestrutura e entusiastas de homelab avançado, a densidade é rei. O formato U.2 de 2,5 polegadas (15mm de espessura) limita fisicamente quantos drives você pode colocar na frente de um servidor 1U. O padrão geralmente é 10 drives.

      Com o E3.S, a geometria muda a favor do usuário. Devido à montagem vertical e espessura reduzida, é possível acomodar até 20 ou mais drives E3.S (versão 1T) na frente de um servidor 1U, dobrando efetivamente a densidade de IOPS e Terabytes por rack.

      Tabela Comparativa: U.2 vs E3.S

      Característica U.2 (2.5" 15mm) EDSFF E3.S (1T) Vantagem
      Interface Nativa PCIe Gen3 / Gen4 PCIe Gen5 / Gen6 E3.S (Futuro)
      Limite de Potência ~25W (com fluxo forçado alto) Até 40W+ (nativo) E3.S (Performance)
      Conector SFF-8639 SFF-TA-1002 E3.S (Sinal)
      Densidade (1U) ~10 Drives ~20+ Drives E3.S (Capacidade)
      Refrigeração Obstrutiva Aerodinâmica E3.S (Eficiência)
      Hot-Swap Sim Sim Empate

      Servidor 1U de alta densidade populado com 20 unidades NVMe no formato E3.S. Figura: Servidor 1U de alta densidade populado com 20 unidades NVMe no formato E3.S.

      A transição para PCIe 6.0 e CXL

      O argumento final contra a permanência do U.2 é o futuro imediato. O padrão PCIe 6.0 utiliza codificação PAM4 (Pulse Amplitude Modulation 4-level), que é extremamente sensível a ruído e perda de inserção. Cabos e conectores antigos simplesmente não conseguem manter a integridade do sinal em distâncias úteis dentro do servidor sem o uso de retimers caros e famintos por energia.

      Além disso, o ecossistema está se movendo para o CXL (Compute Express Link). O CXL permite que dispositivos de memória e aceleradores usem o barramento PCIe com coerência de cache. O formato E3.S foi projetado para abrigar não apenas SSDs, mas também módulos de expansão de memória CXL e aceleradores de IA compactos. Tentar adaptar essas novas tecnologias ao formato de um disco rígido de 20 anos atrás (o formato físico de 2,5") é uma batalha perdida.

      Versatilidade do formato: O chassi E3.S acomodando tanto armazenamento NVMe quanto módulos de expansão de memória CXL. Figura: Versatilidade do formato: O chassi E3.S acomodando tanto armazenamento NVMe quanto módulos de expansão de memória CXL.

      Veredito Técnico

      Se você está cotando infraestrutura para um ciclo de vida de 3 a 5 anos, investir em backplanes U.2 hoje é comprar obsolescência. Embora o ecossistema de 2,5 polegadas ainda tenha preço inicial menor devido ao volume de produção legado, o custo operacional (energia de refrigeração) e a incapacidade de migrar para Gen6 tornam o E3.S a escolha técnica obrigatória.

      Para o mercado Enterprise, a migração já começou. Para entusiastas e homelabs, espere ver esses drives aparecerem no mercado secundário em breve. A era do "tijolo" de 2,5 polegadas acabou; o futuro do armazenamento é vertical, aerodinâmico e denso.


      Perguntas Frequentes (FAQ)

      O que é exatamente o formato E3.S (EDSFF)? O E3.S é um padrão pertencente à família EDSFF (Enterprise & Datacenter Standard Form Factor). Ele foi projetado especificamente para substituir o formato legado U.2 de 2,5 polegadas em servidores modernos. Sua principal vantagem é oferecer uma arquitetura térmica superior e melhor integridade de sinal, essenciais para SSDs NVMe de alta performance (Gen5 e futuros).
      Posso instalar SSDs E3.S nas minhas baias U.2 atuais? Não diretamente. Os formatos são fisicamente incompatíveis e utilizam conectores diferentes (SFF-TA-1002 no E3.S contra SFF-8639 no U.2). A migração para E3.S exige a troca do chassi do servidor ou, em alguns casos modulares, a substituição completa do backplane e das gavetas frontais.
      Por que o PCIe Gen5 força essa mudança de formato? A física é a culpada. SSDs PCIe Gen5 podem consumir mais de 25W e trafegar dados a 14GB/s. O formato U.2 antigo age como uma barreira ao fluxo de ar, dificultando a refrigeração. Além disso, o conector antigo sofre com ruído de sinal (crosstalk) nas frequências do Gen5, o que pode causar erros de dados e redução de velocidade.

      Referências

      • SNIA (Storage Networking Industry Association) - SFF Specifications.

      • Open Compute Project (OCP) - Datacenter NVMe SSD Specification.

      • PCI-SIG - PCI Express 6.0 Specification.

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      Julian Vance
      Assinatura Técnica

      Julian Vance

      Futurista de Tecnologia

      "Exploro as fronteiras da infraestrutura, do armazenamento em DNA à computação quântica. Ajudo líderes a decodificar o horizonte tecnológico e construir o datacenter de 2035 hoje."