Repatriamento de dados: A visão do FinOps sobre storage local vs nuvem

      Arthur Costas 9 min de leitura
      Repatriamento de dados: A visão do FinOps sobre storage local vs nuvem

      Descubra como aplicar FinOps para avaliar o TCO de storage on-premise versus nuvem. Análise de CAPEX, OPEX e o impacto real das taxas de egress no seu budget.

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      A narrativa predominante na última década foi unidirecional: migre tudo para a nuvem ou torne-se obsoleto. No entanto, à medida que as faturas mensais dos provedores de nuvem (AWS, Azure, Google Cloud) começam a corroer as margens brutas de empresas maduras, surge um movimento corretivo e financeiramente racional. O repatriamento de dados não é um retrocesso tecnológico; é uma calibração econômica necessária.

      Para o profissional de FinOps, a nuvem pública deixou de ser o destino padrão para se tornar apenas mais uma opção de infraestrutura, sujeita à mesma análise rigorosa de ROI (Retorno sobre Investimento) e TCO (Custo Total de Propriedade) que um data center físico. Quando analisamos especificamente o armazenamento de dados (storage), a matemática do aluguel perpétuo versus a aquisição de ativos (CAPEX) revela distorções significativas, especialmente para workloads estáveis e de alta intensidade de I/O.

      Resumo em 30 segundos

      • O Aluguel Perpétuo: Armazenamento de alta performance na nuvem (como EBS io2 ou Ultra Disks) possui um prêmio de preço que, em 18-24 meses, supera o custo de aquisição de hardware All-Flash equivalente.
      • A Taxa Invisível: Custos de egress (saída de dados) e chamadas de API (PUT/GET) podem representar até 30% da fatura de storage, destruindo a previsibilidade orçamentária.
      • O Ponto de Inflexão: O repatriamento faz sentido financeiro quando a carga de trabalho é previsível, o volume de dados é massivo (Petabytes) e a necessidade de latência é crítica.

      O paradoxo da nuvem e a inflação do storage

      O conceito de "Cloud Paradox", popularizado por analistas de venture capital, descreve o fenômeno onde a nuvem é excelente para o crescimento inicial (startups) devido à elasticidade e baixo CAPEX inicial, mas se torna um fardo para margens de lucro em escala. No universo do storage, isso é visível na estrutura de preços dos discos gerenciados e do armazenamento de objetos.

      Na nuvem, você paga por três vetores principais: capacidade (GB/TB), performance (IOPS/Throughput) e transações (API/Egress). O erro comum de muitas equipes de engenharia é olhar apenas para o custo do GB.

      Quando uma empresa precisa de 500 TB de armazenamento de alta performance para um banco de dados transacional, o custo mensal de volumes provisionados (como io2 Block Express na AWS ou Ultra Disk no Azure) é astronômico. Diferente de um array de armazenamento físico (SAN) que você compra, deprecia em 5 anos e cujo custo marginal de uso é próximo de zero, o volume na nuvem cobra cada IOPS provisionado, todo mês, para sempre.

      Comparativo visual entre o modelo de custo OPEX acumulativo da nuvem versus o modelo CAPEX amortizado do hardware local. Figura: Comparativo visual entre o modelo de custo OPEX acumulativo da nuvem versus o modelo CAPEX amortizado do hardware local.

      A matemática do CAPEX em arrays NVMe

      Para entender a visão do FinOps, precisamos dissecar o custo unitário (Unit Economics). Vamos comparar um cenário hipotético, mas realista, de infraestrutura de storage de alta performance.

      Imagine um cluster de banco de dados que exige 100 TB de capacidade utilizável e 200.000 IOPS sustentados.

      1. Cenário Nuvem (OPEX): Você aluga volumes de bloco premium. Além do custo por GB, você paga pelo provisionamento de IOPS. Se a aplicação fizer muitas leituras/escritas, o custo é variável e alto. Em 3 anos, você pagou o valor do hardware três ou quatro vezes, e ao final do contrato, você não possui nada.

      2. Cenário Repatriado (CAPEX): Você adquire um Storage All-Flash (AFA) com drives NVMe (Non-Volatile Memory Express). O custo inicial é alto (chassi, controladoras, drives, licenças, switch Fibre Channel). No entanto, esse custo é amortizado.

      💡 Dica Pro: Ao calcular o TCO do on-premise, o FinOps deve incluir: Energia (kW/h), Refrigeração, Espaço em Rack (U), Custo de Rede (Portas de Switch) e "Smart Hands" (equipe para trocar disco). Mesmo com tudo isso, para cargas estáticas acima de 500TB, o hardware próprio costuma vencer por uma margem de 30% a 50% em 3 anos.

      Tabela Comparativa: Storage Nuvem vs. Storage Local (NVMe)

      Característica Storage em Nuvem Pública (Ex: EBS, Managed Disks) Storage Local / Colocation (Ex: All-Flash Array NVMe)
      Modelo Financeiro OPEX (Pagamento mensal variável). CAPEX (Investimento inicial + Depreciação) ou Leasing.
      Custo de IOPS Geralmente cobrado à parte ou limitado por tier. Caro para escalar. Incluído na capacidade do hardware. Custo marginal zero até o limite do box.
      Latência Variável (rede compartilhada, vizinhos barulhentos). Média de 1-3ms. Determinística e ultrabaixa (<0.5ms com NVMe-oF).
      Egress (Saída) Cobrado por GB transferido para fora da nuvem. Geralmente incluso no contrato de trânsito IP ou link dedicado.
      Predictibilidade Baixa. Picos de uso geram faturas surpresa. Alta. O custo do hardware é fixo, varia apenas energia.

      O impacto das taxas de egress e chamadas de API

      Um dos maiores vilões do orçamento de dados não é o armazenamento em si, mas a movimentação. Provedores de nuvem operam em um modelo de "Hotel California": você pode fazer check-in (upload gratuito), mas o check-out (download/egress) custa caro.

      Para empresas que treinam modelos de IA ou realizam análises de Big Data, mover Petabytes de um Data Lake S3 para uma ferramenta de análise externa ou para um ambiente de disaster recovery pode inviabilizar o projeto.

      Além disso, existe o custo oculto das chamadas de API. Armazenamento de objetos (Object Storage) cobra por requisições PUT, GET, COPY e LIST. Se sua aplicação gera milhões de pequenos arquivos (ex: logs, imagens de IoT), a fatura de requisições pode superar o custo do armazenamento dos dados.

      No armazenamento local, seja em um NAS (Network Attached Storage) ou em um cluster de Object Storage on-prem (como MinIO sobre servidores densos), não existe taxímetro para ler ou escrever seus próprios dados. A largura de banda é limitada apenas pelos seus switches e cabos de fibra óptica.

      O framework FOCUS e a normalização de custos

      A FinOps Foundation lançou recentemente o projeto FOCUS (FinOps Open Cost and Usage Specification). O objetivo é criar uma linguagem comum para normalizar faturas. Isso é crucial para o repatriamento.

      Muitas empresas falham na decisão de repatriar porque comparam laranjas com maçãs. Elas olham para a fatura da AWS e comparam apenas com o preço do servidor Dell ou HPE. O FOCUS ajuda a estruturar os dados para que você possa ver o custo real da "unidade de recurso".

      Ao aplicar o FOCUS, você deve criar colunas que normalizem:

      • AmortizedCost (para o hardware comprado).

      • NetEffectiveCost (considerando descontos de volume).

      • ResourceUtility (quanto do disco comprado está realmente sendo usado).

      Isso permite que o CFO veja uma linha única de custo por TB, independentemente se esse TB está em um bucket na Virgínia ou em um SSD no data center da empresa em São Paulo.

      Dashboard unificado demonstrando a normalização de custos entre nuvem e on-premise usando métricas do framework FOCUS. Figura: Dashboard unificado demonstrando a normalização de custos entre nuvem e on-premise usando métricas do framework FOCUS.

      Latência zero e controle como vantagem de margem

      Existe um argumento além do custo direto: o custo de oportunidade. Em setores como finanças (HFT - High Frequency Trading), saúde (diagnóstico por imagem em tempo real) e manufatura, a latência é dinheiro.

      O armazenamento local, especialmente com tecnologias modernas como NVMe over Fabrics (NVMe-oF), permite que o armazenamento seja acessado pela rede com latências quase idênticas às de um disco conectado diretamente ao servidor (DAS).

      Na nuvem, você não tem controle sobre onde seu disco está fisicamente em relação à sua VM. No seu data center, você controla a topologia exata. Eliminar milissegundos de latência pode significar processar mais transações por segundo com o mesmo hardware, aumentando a eficiência operacional e, consequentemente, a margem bruta.

      ⚠️ Perigo: Repatriar sem modernizar é um erro fatal. Não traga dados da nuvem para colocá-los em discos HDD rotacionais antigos (spinning rust) esperando a mesma performance. O repatriamento exige investimento em Flash/NVMe para competir com a experiência de usuário da nuvem.

      O futuro é híbrido e intencional

      O movimento de repatriamento não decreta o fim da nuvem pública. Pelo contrário, ele amadurece o mercado. A nuvem continua imbatível para cargas de trabalho elásticas, experimentação rápida e distribuição global de conteúdo (CDN).

      No entanto, para o "núcleo pesado" de dados corporativos — aqueles Petabytes que crescem constantemente e precisam ser acessados frequentemente — a gravidade dos dados dita que eles devem residir onde a economia for mais favorável.

      A tendência para os próximos anos é a consolidação de uma estratégia de "Cloud Smart" em vez de "Cloud First". Isso significa usar a nuvem pública para computação elástica e serviços gerenciados inovadores, mas manter a soberania e a economia dos dados em infraestrutura controlada, seja em data centers próprios ou em colocation com conectividade direta (Direct Connect/ExpressRoute) para a nuvem. O FinOps deixa de ser apenas sobre cortar custos de nuvem e passa a ser sobre a arquitetura financeira inteligente de toda a TI.

      FAQ

      O que é o repatriamento de dados no contexto de FinOps? É o processo estratégico e financeiro de mover workloads e volumes de dados da nuvem pública de volta para infraestrutura local (on-premise) ou colocation. O objetivo não é apenas técnico, mas focado na otimização de TCO (Custo Total de Propriedade) e na obtenção de previsibilidade orçamentária, fugindo das taxas variáveis da nuvem.
      Como o FinOps ajuda a decidir entre Storage na Nuvem e On-Premise? O FinOps fornece a estrutura analítica para calcular o custo unitário real (Unit Economics). Ele permite comparar o OPEX variável da nuvem (incluindo taxas de egress, API e IOPS provisionados) com o CAPEX amortizado de hardware dedicado, considerando custos de energia, espaço e depreciação.
      Quais são os custos ocultos mais comuns em storage na nuvem? Além do preço por GB, os custos que frequentemente estouram o orçamento são as taxas de egress (saída de dados para a internet ou outras regiões), custos de chamadas de API (cada leitura/escrita conta, como PUT/GET/LIST), taxas de replicação entre regiões e custos de IOPS provisionados (comuns em volumes de alta performance como EBS io2 ou Ultra Disks).
      O que é o projeto FOCUS da FinOps Foundation? O FOCUS (FinOps Open Cost and Usage Specification) é uma especificação técnica aberta lançada para normalizar dados de faturamento. Ele cria um padrão para que custos de nuvem, SaaS e infraestrutura on-premise possam ser comparados em uma única visão, facilitando a análise de eficiência e a tomada de decisão sobre onde alocar cada workload.
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      Arthur Costas
      Assinatura Técnica

      Arthur Costas

      Especialista em FinOps

      "Transformo infraestrutura em números. Meu foco é reduzir TCO, equilibrar CAPEX vs OPEX e garantir que cada centavo investido no datacenter traga ROI real."