Roteiro de 2026: a promessa dos SSDs de 245 TB e o fim da 'baia quente'

      Mariana Costa 7 min de leitura
      Roteiro de 2026: a promessa dos SSDs de 245 TB e o fim da 'baia quente'

      Em 2026, a Solidigm e a Samsung redefinem o storage com drives de 122 TB e o roteiro para 245 TB. Entenda o impacto no TCO, o fim do SATA e o risco do 'raio de explosão'.

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      Se você piscou em 2025, perdeu a mudança tectônica que redefiniu o conceito de densidade no data center. Enquanto a indústria de discos rígidos (HDD) comemorava timidamente a chegada aos 40 TB com tecnologias complexas como HAMR, o setor de memória NAND Flash simplesmente atropelou essa marca. Estamos em 2026 e o roteiro das principais fabricantes — Solidigm, Samsung e Kioxia — aponta para uma realidade que parecia ficção científica há três anos: o SSD de 245 TB.

      Não estamos falando apenas de "mais espaço". Estamos falando de uma rearquitetura completa de como armazenamos dados, aposentando formatos físicos que nos acompanham desde os anos 90 e criando novos desafios operacionais que a maioria dos administradores de TI ainda não está pronta para enfrentar.

      Resumo em 30 segundos

      • A Fenda da Densidade: Enquanto HDDs lutam para estabilizar 40 TB, SSDs Enterprise já vislumbram 245 TB em um único drive, impulsionados pela demanda insaciável de IA.
      • O Fim do Legado: O formato 3.5" e a interface SATA tornaram-se gargalos térmicos e de performance. O padrão EDSFF (as "réguas") é o novo normal.
      • Risco Crítico: Perder um único drive de 245 TB cria um "raio de explosão" massivo, exigindo novas estratégias de proteção de dados além do RAID tradicional.

      A densidade que o mercado de IA exigiu

      A inteligência artificial generativa parou de ser apenas um chatbot divertido e virou a infraestrutura crítica de 2026. O problema dos Modelos de Linguagem (LLMs) modernos não é apenas o processamento (GPU), mas a alimentação desses processadores.

      Manter petabytes de dados de treinamento em discos rotacionais tornou-se inviável. A latência mecânica de um braço atuador buscando dados em um prato magnético é uma eternidade para uma GPU H200 ou Blackwell esperando por datasets.

      Para resolver isso, a indústria de armazenamento precisou empilhar camadas de silício como nunca antes. A tecnologia 3D NAND ultrapassou as 400 camadas, permitindo que a capacidade dobre sem aumentar o tamanho físico do chip. O resultado é um drive que consome uma fração da energia por terabyte em comparação com um array de discos mecânicos.

      O abismo entre 40 TB magnéticos e 245 TB de flash

      A disparidade é brutal. Para atingir 40 TB, os fabricantes de HDD tiveram que recorrer ao aquecimento a laser (HAMR) ou micro-ondas (MAMR) em pratos girando a 7.200 RPM, com tolerâncias físicas microscópicas. É uma maravilha da engenharia, mas está chegando ao limite da física.

      Do outro lado, o Flash apenas continua encolhendo e empilhando.

      A consolidação física: em 2026, um único chassi 2U com drives de ultra-densidade substitui corredores inteiros de discos giratórios de legado. (Fig. 1) Figura: A consolidação física: em 2026, um único chassi 2U com drives de ultra-densidade substitui corredores inteiros de discos giratórios de legado. (Fig. 1)

      💡 Dica Pro: Para quem gere infraestrutura on-premise, o cálculo de TCO (Custo Total de Propriedade) mudou. O custo inicial do Flash ainda é maior, mas quando você substitui 20 HDDs por 2 SSDs, a economia em refrigeração, espaço de rack e licenciamento de software (muitas vezes cobrado por soquete de CPU ou unidade) paga a diferença em menos de 24 meses.

      A morte silenciosa do SATA e a ascensão do EDSFF

      Se você ainda está comprando servidores novos com baias para discos de 3.5 polegadas e interface SATA em 2026, pare. Você está investindo em tecnologia zumbi.

      O conector SATA e o formato físico tijolão dos discos antigos foram desenhados para uma era onde o fluxo de ar não era crítico e a velocidade máxima era 600 MB/s. Com o PCIe 5.0 e 6.0 se tornando padrão, precisamos de interfaces que suportem gigabytes por segundo e dissipem calor eficientemente.

      Entra em cena o EDSFF (Enterprise & Data Center SSD Form Factor), especificamente os formatos E1.S e E3. Conhecidos como "réguas", esses drives possuem dissipadores de calor integrados e se encaixam verticalmente no servidor, permitindo que o ar frio do corredor passe através deles, e não ao redor deles. A "baia quente" tradicional, onde o ar ficava preso atrás de um chassi denso, está sendo extinta por necessidade térmica.

      O pesadelo do 'raio de explosão' e a reconstrução de dados

      Aqui está o lado sombrio da superdensidade. Imagine um único drive de 245 TB falhando.

      No mundo dos HDDs de 10 TB, a reconstrução de um RAID 6 era dolorosa, mas gerenciável. Perder 245 TB de uma vez cria um "raio de explosão" (blast radius) catastrófico. Mesmo com a velocidade do NVMe, reconstruir essa quantidade de dados através da rede sobrecarrega a malha (fabric) do data center e deixa o array vulnerável a uma segunda falha por dias.

      ⚠️ Perigo: Não use RAID 5 ou 6 convencional para drives dessa magnitude. A probabilidade de um erro de leitura irrecuperável (URE) durante a reconstrução de 200TB+ é estatisticamente garantida.

      A solução de 2026 passa por Erasure Coding avançado e distribuído, onde a reconstrução não acontece disco-a-disco, mas sim many-to-many através de múltiplos nós do cluster. Se você é um entusiasta de Home Lab rodando TrueNAS ou Unraid, a mensagem é clara: o espelhamento (Mirror/RAID 10) volta a ser rei pela simplicidade e velocidade de recuperação, apesar do custo.

      O que esperar: PLC e a barreira do petabyte por U

      Para chegar a 245 TB e além, a indústria está adotando o PLC (Penta-Level Cell), que grava 5 bits de dados por célula de memória.

      Tabela Comparativa: A Evolução das Células

      Tecnologia Bits/Célula Durabilidade Caso de Uso Principal
      TLC (Atual Padrão) 3 Alta OS, Bancos de Dados, VMs
      QLC (Mainstream) 4 Média Armazenamento Geral, Mídia
      PLC (Futuro 2026) 5 Baixa Arquivamento Ativo, Data Lakes IA

      O PLC é mais lento e tem menor durabilidade de escrita que o QLC ou TLC. No entanto, para cargas de trabalho de leitura intensiva (como alimentar uma IA que apenas lê dados para aprender), a durabilidade de escrita é irrelevante.

      Isso nos leva à barreira do Petabyte por U. Com drives E3.S de alta capacidade, já é possível colocar 1 Petabyte de armazenamento flash em um servidor de apenas 1U (uma unidade de rack). Isso consolida corredores inteiros de storages legados em meio rack, liberando espaço físico valioso para o que realmente importa hoje: mais GPUs.

      Perspectiva

      Não espere que o preço desses monstros de 245 TB seja acessível para o consumidor final tão cedo. No entanto, a existência deles pressiona os preços dos SSDs de 30 TB e 60 TB para baixo, tornando o All-Flash uma realidade palpável até para pequenas empresas e entusiastas sérios ainda este ano. Se o seu plano de infraestrutura para os próximos cinco anos ainda depende de discos giratórios para algo além de "backup frio", é hora de voltar para a prancheta. O disco rígido não morreu, mas foi exilado para o porão do data center.


      Perguntas Frequentes

      1. Esses SSDs de 245 TB funcionam no meu PC gamer? Provavelmente não. Eles utilizam interfaces corporativas (U.2, U.3 ou EDSFF) e requerem refrigeração ativa poderosa que gabinetes domésticos não oferecem. Além disso, o custo seria proibitivo.

      2. O HDD vai desaparecer completamente em 2026? Não. O custo por TB do disco magnético ainda é imbatível para "Cold Storage" (dados que você grava e quase nunca acessa, como backups de conformidade legal). Mas para qualquer coisa que exija performance, o HDD já perdeu a batalha.

      3. O que é "Raio de Explosão" em storage? É o impacto causado pela falha de um único componente. Quanto maior o disco, maior a quantidade de dados perdidos de uma só vez e maior o esforço do sistema para recuperar essa informação, aumentando o risco de falhas em cascata.

      4. A tecnologia PLC é confiável? Sim, mas para o uso correto. Ela não serve para um disco de sistema operacional que grava arquivos de log o tempo todo. Ela é desenhada para "WORM" (Write Once, Read Many) — gravar uma vez e ler muitas vezes.

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      Mariana Costa
      Assinatura Técnica

      Mariana Costa

      Repórter de Tecnologia (Newsroom)

      "Cubro o universo de TI corporativa com agilidade jornalística. Minha missão é traduzir o 'tech-speak' de datacenters e cloud em notícias diretas para sua tomada de decisão."