Seagate inicia envio em volume dos HDDs HAMR de 36TB: o que muda no data center

      Mariana Costa 7 min de leitura
      Seagate inicia envio em volume dos HDDs HAMR de 36TB: o que muda no data center

      Após fase de testes, Seagate começa a despachar unidades Mozaic 3+ de 36TB em massa. Entenda o impacto do HAMR na densidade de storage e no TCO.

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      A espera finalmente acabou. Após anos de roteiros revisados, promessas de "lançamento iminente" e uma fase de qualificação exaustiva com os maiores players de nuvem do mundo, a Seagate começou o envio em volume de seus discos rígidos de 36TB baseados na tecnologia HAMR (Heat-Assisted Magnetic Recording).

      Para o mercado de data centers, isso não é apenas um aumento incremental de capacidade. É a validação de uma tecnologia que muitos céticos acreditavam que nunca sairia dos laboratórios de P&D devido à sua complexidade física. A era da gravação magnética assistida por calor chegou, e ela promete reescrever a economia do armazenamento em hiperescala.

      Resumo em 30 segundos

      • Volume real: A Seagate superou a fase de testes e iniciou o envio massivo de unidades de 36TB (plataforma Mozaic 3+) para hyperscalers.
      • Física superada: O HAMR usa um laser nanoscópico para aquecer o prato do disco, permitindo gravar bits menores em mídias mais estáveis, algo impossível com a tecnologia anterior.
      • Economia de escala: O foco total é o TCO (Custo Total de Propriedade). Mais Terabytes no mesmo slot significam menos racks, menos energia por TB e maior densidade por metro quadrado.

      A promessa do HAMR finalmente vira produto de prateleira

      Há quase uma década, a indústria de armazenamento mecânico bateu em uma parede invisível chamada "limite superparamagnético". Basicamente, os bits magnéticos nos pratos dos HDDs ficaram tão pequenos que se tornaram instáveis, correndo o risco de virar aleatoriamente devido à temperatura ambiente, o que corromperia os dados.

      A resposta da Seagate foi apostar tudo no HAMR. Enquanto concorrentes como a Western Digital exploraram caminhos intermediários como o ePMR e MAMR (assistido por micro-ondas), a Seagate insistiu que apenas o calor poderia levar os HDDs além da barreira dos 30TB de forma sustentável.

      Com a plataforma Mozaic 3+, a empresa afirma ter resolvido os desafios de integração. Não estamos mais falando de unidades de engenharia feitas à mão. Estes são drives de produção em massa, saindo das fábricas para preencher os corredores de servidores da AWS, Google e Microsoft Azure.

      💡 Dica Pro: Se você gerencia um Home Lab ou um servidor TrueNAS pequeno, não espere ver esses discos no varejo (Amazon/Newegg) imediatamente. O foco inicial é 100% Enterprise e Hyperscale. A disponibilidade para o canal de varejo (série IronWolf/Exos para consumidores) geralmente leva de 12 a 18 meses após a adoção no data center.

      Por que tivemos que 'queimar' o disco para guardar mais dados

      Para entender o salto tecnológico, precisamos olhar para a física do problema. Para aumentar a densidade (mais TB no mesmo tamanho físico de 3,5 polegadas), precisamos diminuir o tamanho dos bits.

      Para que bits minúsculos sejam estáveis e não percam sua orientação magnética, o material do prato precisa ser incrivelmente "duro" magneticamente (alta coercividade). A Seagate utiliza uma liga de platina-ferro para isso. O problema: esse material é tão estável que as cabeças de gravação convencionais não conseguem gerar um campo magnético forte o suficiente para escrever nele.

      É aqui que entra o laser.

      Fig. 1: Comparativo de densidade de gravação entre tecnologia convencional e HAMR. Fig. 1: Comparativo de densidade de gravação entre tecnologia convencional e HAMR.

      Cada cabeça de gravação HAMR possui um diodo laser minúsculo. Antes de gravar o dado, o laser aquece uma área microscópica do prato a mais de 400°C por uma fração de nanossegundo. O calor reduz temporariamente a coercividade do material, permitindo que a cabeça magnética grave o bit. O resfriamento é instantâneo, "congelando" o dado no lugar.

      Densidade extrema e o novo cálculo de TCO para hyperscalers

      Para um usuário doméstico, pular de um disco de 22TB para 36TB é conveniente. Para um data center com 100.000 discos, é uma revolução financeira.

      A métrica chave aqui não é o preço do disco, mas o TCO. Ao migrar de drives de 16TB ou 20TB (comuns em frotas legadas) para unidades de 36TB, os operadores de data center podem:

      1. Reduzir a pegada física: Armazenar a mesma quantidade de Petabytes em quase metade dos racks.

      2. Eficiência energética: Embora um disco HAMR possa consumir ligeiramente mais energia individualmente devido à eletrônica avançada, o consumo de Watts por Terabyte cai drasticamente.

      3. Custo de slot: Cada slot de servidor custa dinheiro (chassi, controladora, refrigeração). Maximizar a densidade de cada slot é a maneira mais rápida de diluir os custos de infraestrutura.

      ⚠️ Perigo: A densidade extrema traz um risco operacional conhecido como "raio de explosão" (blast radius). Se um disco de 36TB falha, o tempo de rebuild (reconstrução) do RAID é imenso. Isso exige controladoras mais robustas e algoritmos de erasure coding mais eficientes do que o RAID 5 ou 6 tradicional para evitar perda de dados durante a recuperação.

      O elefante na sala: confiabilidade térmica e compatibilidade

      A maior dúvida dos engenheiros de infraestrutura sempre foi: "Colocar um laser dentro de um disco rígido que gira a 7200 RPM não vai diminuir a vida útil?".

      A Seagate garante que não. Segundo dados da empresa, as cabeças HAMR demonstraram confiabilidade equivalente às cabeças PMR (Perpendicular Magnetic Recording) tradicionais em testes de campo. A chave está no fato de que o laser não aquece o disco inteiro, apenas uma área menor que um grão de sal, e o calor se dissipa em nanossegundos. Não há acúmulo térmico significativo que afete os rolamentos ou o motor.

      Outro ponto crucial é a compatibilidade "plug-and-play". Diferente da tecnologia SMR (Shingled Magnetic Recording) gerenciada pelo host, que exigia alterações no software do sistema operacional para funcionar bem, os drives HAMR se comportam como discos normais. Eles usam interfaces SAS ou SATA padrão. O servidor não precisa "saber" que há um laser lá dentro; ele apenas vê um bloco gigantesco de armazenamento endereçável.

      Rumo aos 50TB e o fim dos discos mecânicos pequenos

      O envio dos modelos de 36TB é apenas o começo. A plataforma Mozaic 3+ foi desenhada para escalar. A densidade de área atual permite, teoricamente, chegar aos 40TB e 50TB nos próximos anos apenas refinando o processo, sem precisar reinventar a roda novamente.

      Isso sinaliza uma mudança definitiva no mercado. Os discos mecânicos (HDDs) estão abandonando completamente o mercado de "baixa capacidade" (abaixo de 8TB-10TB), que está sendo engolido pelos SSDs. O futuro do HDD é ser um repositório massivo, denso e barato (por GB) para dados frios e mornos.

      Previsão para o setor

      A chegada do HAMR de 36TB em volume consolida a sobrevida do disco rígido por pelo menos mais uma década. Enquanto o preço por TB dos SSDs Flash NAND não cair drasticamente (algo que desacelerou nos últimos anos), o HDD continuará sendo a espinha dorsal da internet. Para 2026, espere ver a resposta da Western Digital e da Toshiba, mas por enquanto, a Seagate detém a coroa da densidade e a vantagem de ser a primeira a mover essa tecnologia complexa do PowerPoint para o chassi do servidor.


      Perguntas Frequentes

      1. O HAMR gera mais calor que um disco normal? O disco em si opera em temperaturas similares aos drives corporativos atuais (ex: Exos X20). O aquecimento do laser é pontual e microscópico, não afetando a temperatura geral do chassi de forma perceptível. O gerenciamento térmico do rack permanece o mesmo.

      2. Posso usar esses discos no meu NAS Synology ou QNAP? Tecnicamente, sim, se a interface for compatível (SATA/SAS). No entanto, a lista de compatibilidade oficial (HCL) desses fabricantes demora para ser atualizada. Além disso, o custo inicial será proibitivo para consumidores.

      3. Qual a diferença entre HAMR e MAMR? HAMR (Seagate) usa calor (laser) para facilitar a gravação. MAMR (Western Digital/Toshiba) usa micro-ondas para criar um efeito de ressonância ferromagnética. O HAMR é tecnicamente mais difícil de implementar, mas oferece um potencial de densidade futura maior (acima de 50TB).

      4. Esses discos são SMR ou CMR? A tecnologia HAMR pode ser aplicada em ambos. No entanto, os modelos de 36TB focados em Enterprise geralmente buscam performance CMR (Conventional Magnetic Recording) para evitar as penalidades de escrita do SMR, embora variantes SMR para archival (arquivamento profundo) possam surgir com capacidades ainda maiores.

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      Mariana Costa
      Assinatura Técnica

      Mariana Costa

      Repórter de Tecnologia (Newsroom)

      "Cubro o universo de TI corporativa com agilidade jornalística. Minha missão é traduzir o 'tech-speak' de datacenters e cloud em notícias diretas para sua tomada de decisão."